Simbologia da Alma

Simbologia da Alma

A palavra alma evoca um poder invisível: ser distinto, parte de um ser vivente ou simples fenômeno vital; material ou imaterial, mortal ou imortal; princípio de vida, de organização, de ação; salvo fugazes aparições, sempre invisível, manifestando-se somente através de seus atos. Por seu poder misterioso, sugere uma força supranatural, um espírito, um centro energético. Afirmar a existência de uma alma, entretanto, provoca reações opostas. Na opinião da ciência ou da filosofia esta existência é rejeitada (impostura de padres, segundo d’Alembert; teoricamente uma tolice, segundo Feuerbach; não existe alma na ponta de um escalpelo, para um cirurgião) ou aceita, diferentemente concebida, sem dúvida, porém admitida. Essas duas atitudes determinarão diferenças essenciais na antropologia. Na ética e na religião. Mas, evocadora de invisível poder e provocadora de um saber, de uma crença na rejeição, a alma possui, nessa dupla qualidade, pelo menos o valor do símbolo, tanto pelas palavras e gestos que a exprimem como pelas imagens que a representam. Subentende toda uma cadeia de símbolos.
As representações simbólicas da alma são tão numerosas quanto as crenças que nela existem. Por breve que seja, uma noção a respeito dessas crenças torna-se indispensável ao entendimento dos símbolos. Entre os egípcios, por exemplo a íbis-sagrada representa o princípio imortal (Akh), de natureza celeste, brilhante e poderosa ao mesmo tempo, que parece comum aos homens e deuses; a ave com cabeça humana corresponde ao espírito próprio de cada indivíduo (ba), que pode vagar após a morte pelos lugares antes freqüentados pelo defunto. O ba, portanto, é um princípio espiritual que pode aparecer independentemente de seu suporte físico, agir por sua própria conta, representar de certo modo seu dono… alma itinerante de um ser vivo, capaz de ação material. Além desses dois princípios, o homem compõem-se ainda de outros elementos, entre os quais a sombra e o nome, este último traduzido seu ser íntimo.
Entre os maia-quiché (Popul-Vuh) quer a tradição que o morto seja estendido de costas para que sua alma possa sair livremente pela boca, a fim de que Deus a ice em direção ao outro mundo. Assim como a essência divina – o sêmen –, a alma é representada por uma fita ou por uma corda, e os Chorti simbolizam-na por uma cadeia de treze frutos que cinge o cadáver e que eles denominam: o cabo pelo qual Nosso senhor nos puxa.
Entre os Naskapi, índios caçadores do Canadá, a alma é uma sombra, uma centelha ou pequena chama que sai pela boca; entre os Delaware, a alma reside no coração e é denominada imagem, reflexo, fenômeno visível sem matéria corpórea.
Para os índios da América do Sul, uma mesma palavra pode frequentemente designar a alma, a sombra, e a imagem. Ou então, a alma, o coração (caraíbas) e o pulso (uitotos).
É freqüente o homem ter várias almas (2, 3, 4 ou mais), cujas funções são diferentes e cuja matéria é sutil em maior ou menor grau; em geral, somente uma ganha o céu após a morte; as demais permanecem com o cadáver, ou então, sendo de origem animal, reencarnam-se sob forma de animal. É crença geral, entre esses índios, que o sono, do mesmo modo que a catalepsia ou o transe, provém de uma perda temporária da alma.
Para os bantos do Cassai (bacia congolesa), a alma separa-se igualmente do corpo durante o sono; os sonhos que traz de suas viagens ter-lhe-iam sido comunicados pelas almas dos mortos com as quais conversou. Na síncope, no transe e na hipnose, a alma também deixa o corpo, afastando-se dele ainda mais; pode acontecer, nesses casos, que ela vá até o país dos espíritos, de que dá testemunho ao despertar.
Segundo o Dr. Fourques, os balubas e os luluas consideram que três veículos sutis, estão associados à pessoa humana: o mujanji, dentre eles o veiculo mais grosseiro, assimilado ao fantasma, guia a vida animal; seria análogo ao corpo etéreo dos ocultistas; o Mukishi é o duplo, veiculo dos sentimentos e da inteligência inferior, análogo ao corpo astral dos ocultistas; e, por fim, o M’vidi que veicula a inteligência superior e a intuição; a reencarnação só é possível mediante a reunião desses três corpos sutis; o homem é o único a possuir esses três princípios, sendo que os animais têm apenas um fantasma (mujanji), excetuando-se o cão, igualmente possuidor de um duplo (Mukishi), o que explica a sua importância ritual. Mujanji dirige a vida do corpo, Mukishi escapa do envoltório corporal durante o sono e dialoga com os Mukishi dos defuntos (sonhos); M’vidi adverte o homem dos perigos ocultos ou daqueles cujos sinais de aproximação escapam à sua percepção.
Nas concepções populares da África do Norte, o corpo é habitado por duas almas: uma alma vegetativa, nefs, e uma alma sutil ou sopro, rruh; à alma vegetativa correspondem as paixões e o comportamento emocional; é transportada pelo sangue, sua sede é no fígado. À alma sutil ou sopro corresponde a vontade, sendo que ela circula nos ossos e sua sede é no coração.
A união dessas duas almas é simbolizada pelo par árvore-rochedo : a primeira representa o princípio feminino, o segundo, o princípio masculino… A árvore dá sombra e umidade à nefs, a alma vegetativa; mas é sobretudo o suporte privilegiado de rruh, a alma sutil, que nela vem pousar como um pássaro. Nefs está presente no rochedo ou na pedra, e as fontes que brotam das pedras são justamente o símbolo da fecundidade vinda do mundo de baixo.
A alma pode deixar o corpo sob a forma de uma abelha ou de uma borboleta, contudo, com maior freqüência, manifestando-se sob a forma de um pássaro.
Para os povos siberianos, tanto os animais como os homens têm uma ou várias almas; muitas vezes essas almas são assimiladas à sombra dos seres que animam.na Sibéria do Norte, entre os yukaguires, diz-se que um caçador não se pode apoderar do animal caçado, a menos que um de seus parentes defuntos não se tenha previamente apoderado da sombra do animal em questão.
Para os esquimós, a alma e as pequenas almas desempenham um papel constante e misterioso em toda a vida e nos rituais funerários. Para os yacutes, tchuvaches, etc., a alma sai pela boca de quem dorme, para viajar; materializa-se geralmente sob forma de um inseto ou borboleta; em certas lendas da Europa Central, toma o aspecto de um rato.
Como tantos outros povos primitivos, especialmente os indonésios, os povos norte-asiáticos estimam que o homem pode ter até sete almas. Na morte, uma delas fica no túmulo, uma segunda desce ao reino das sombras, e a terceira sobre ao céu… A primeira reside nos ossos; a segunda alma (que reside provavelmente no sangue) pode abandonar o corpo e circular sob a forma de uma abelha ou de uma vespa; a terceira, em tudo semelhante ao homem, é uma espécie de fantasma. Na morte, a primeira fica dentro do esqueleto, a segunda é devorada pelos espíritos, e a terceira aparece aos humanos sob a forma de um fantasma.
Segundo Batarov, citado por U. Harva, os buriatas acreditam que uma de suas três almas desça aos infernos, que a segunda permaneça na terra sob forma de espírito perseguidor (bokholdoi) e que a terceira renasça em um outro homem.
A maioria dos povos turco-mongóis acredita na existência de uma alma continuamente separada do corpo e que, em geral, vive sob forma de um animal, inseto, pássaro ou peixe. Na epopéia quiguiz de Er Tôshtük, o herói, graças à sua força e valor prodigiosos, possui em lugar de alma uma lima de ferro; mata-se um homem destruindo o animal ou o objeto que materializam sua alma.
O ubyr dos tártaros do Volga é uma alma de caráter especial, que nem todos os homens possuem obrigatoriamente. Quando morre seu portador, o ubyr continua a viver, e sai, à noite, através de um pequeno orifício perto da boca do cadáver para sugar o sangue dos homens adormecidos: relaciona-se, portanto, com o mito do vampiro. Destrói-se o ubyr desenterrando o cadáver e fincando-o no chão por uma estaca enfiada no peito. O ubyr de um homem vivo é igualmente nefasto, saindo frequentemente do corpo deste para cometer toda espécie de malfeitorias. Pode-se encontrá-lo sob a forma de uma bola de fogo, de um porco, de um gato preto e de um cão. O ubyr perde seus poderes quando aquele que o vê racha um forcado de estrumar feito de madeira, ou qualquer forquilha de árvore.
O elefante, o tigre, o leopardo, o leão, o rinoceronte, o tubarão e inúmeros outros animais, sobretudo entre os que se reputam ctonianos, são por vezes considerados como a reencarnação de reis ou de chefes defuntos; Frazer dá múltiploes exemplos desse tipo provenientes da Ásia (Semang e Malásoa) e da África Negra (Daomé e Nigéria).
Na China a alma é dupla, composta de dois princípios: Kuei e Shen. Kuei é a alma mais pesada, aquela que os desejos do vivente fazer pesar; permanece perto do tumulo e assombra os lugares familiares… Shen é o gênio, a parcela divina presente no ser humano… No século IV antes de nossa era, esse dualismo popular veio reunir-se ao grande dualismo da cosmogonia oficial, fundada na oposição dos dois princípios, o yin terrestre e feminino e o yang masculino e celeste.
No mundo celta não se conhece nenhum equivalente exato da lenda de Eros e Psique. Mas o exame da lexicografia neocéltica do nome da “alma” (irlandês: ainim. Bretão: ene e anaon [alma de finados]) mostra que os celtas da Antiguidade também conheceram em seu vocabulário e suas concepções religiosas e metafísicas, a distinção entre animus e anima, nos sentidos respectivos de alma (espírito) e de alma (sopro), caída em desuso no vocabulário litúrgico a partir do século IV (animus foi substituída por spiritus). O nome pancéltico da alma, anamon, está também em relação etimológica com o nome da harmonia anavo-n e o da divindade (Ana) feminina primordial. Simbolizada, assim, a plenitude das virtualidades do homem enquanto ser “espiritual”.
Os druidas da Gália e da Irlanda ensinavam a como uma de suas doutrinas fundamentais a imortalidade da alma. Após a morte, os defuntos vão para o Além e aí continuam levando uma vida semelhante à que levavam neste mundo. Tem-se um vestígio dessa concepção do Além nos Anaon bretões que, na festa dos mortos, o dia seguinte ao de Todos-os-Santos (corresponde à Samain irlandesa) retornam, por caminhos que lhes são familiares. AP sei antigo domicilio. Os escritores antigos muitas vezes confundiram essa doutrina da alma com a da metempsicose; mas são distintas: os deuses, sendo imortais por definição, não têm necessidade da imortalidade da alma, e os humanos não têm acesso ao Outro-Mundo a não ser temporária e excepcionalmente, sendo que este se distingue do Além.
Entregar a alma é morrer. Animar, dar uma alma a, é fazer viver. Segundo pensamento judaico, a alma está dividida em duas tendências: uma superior (celeste) e outra inferior (terrestre). O pensamento judaico considera também o princípio masculino (nefesh) e o princípio feminino (chajah); um e outro são chamados a transformar-se, a fim de poder tornar-se um único princípio espiritual, rugh, o sopro, o espírito. Este último está ligado à imagem divina e cósmica de nuvem densa, de nevoeiro. O elemento vital ou terrestre dignifica a exterioridade; o elemento espiritual ou celeste, a interioridade.
O tema da viagem celeste da alma está indicado sob forma de um sol errante (curso solar do nascente ao poente). A alma (alma-espírito), enquanto substância luminosa é comumente representada sob forma de uma chama ou de um pássaro.
Entre os gregos, no tempo da Ilíada: a alma, psyché, como anima, em latim, significa exatamente o sopro. Sombra, eidolon, é, a rigor, uma imagem. Por fim, o espírito é designado por uma palavra material, phrenes, o diafragma, sede do pensamento e dos sentimentos, inseparáveis de um suporte fisiológico (Jean Defradas).
Sob influencias dos filósofos, os gregos, mais tarde, distinguiram na alma humana partes, princípios, forças ou faculdades. Para Pitágoras, a psique corresponde à força vital; a sensibilidade (aísthesis), à percepção sensível; o nous, à faculdade intelectual, único princípio especificamente humano. Conhece-se o paralelismo desenvolvido por Platão (República, Livro IV) entre as partes da alma e as classes ou funções sociais. Aristóteles distinguirá no nous o intelecto passivo do intelecto ativo, que será, nas especulações ulteriores, identificado ao Logos e a Deus. A noção de pneuma só intervirá mais tarde, na literatura de tendência teológica, como a da alma que é chamada a viver na sociedade dos deuses, sopro puramente espiritual que se dirige para as regiões celestes. Se bem que ela se enraíze no pensamento de Platão, e que se desenvolva seus séculos mais tarde com Plotino, só dará origem a toda uma pneumatologia nos primeiros séculos da era cristã, para desabrochar no gnosticismo. A teologia simbólica não encontrará melhor imagem para exprimir o que é a alma-espírito, do que a do sopro que sai da boca de Deus.
Para os romanos, o pneuma, em latim spiritus, é ao mesmo tempo, observa Jean Beaujeu, o princípio da geração para o conjunto dos seres animados, e, sob um conjunto aspecto puramente inteligível e espiritual, o princípio do pensamento humano. O fogo que entra na natureza do pneuma provém do fogo puro do éter, não de uma combustão terrestre; essa origem estabelece o parentesco real da alma com o céu…
A noção de pneuma, mescla de ar e de calor vital, estreitamente relacionado e muitas vezes identificado com o fogo puro do éter, que é a alma do mundo, parece ter seu ponto de partida num dos primeiros tratados de Aristóteles, de onde se transmitiu para os estóicos. Mas a assimilação do cosmo a um ser vivo parece, por sua vez, de origem pitagórica; e é através de Platão que ela passa para os estóicos. Do mesmo modo, a idéia de que o corpo paralisa e embota a alma, sujeitando-a, a um só tempo, às trevas e às paixões, encerrando-a numa espécie de prisão, expandiu-se depois de Platão a toda uma linhagem de pensadores, filósofos e religiosos.
São Paulo, sem pretender ensinar uma antropologia completa e coerente, distingue no homem integral o espírito (pneuma), a alma (psique) e o corpo (soma). Se compararmos o texto da Primeira Epístola aos Tessalonicenses (5, 23) ai da Primeira Epístola aos Coríntios (15, 44), verifica-se que a alma-psique é o que o corpo, ao passo que o espírito-pneuma é a parte do ser humano aberta à vida mais elevada, à influência direta do Espírito Santo. É ela quem se beneficiará da salvação e da imortalidade, ela é a santificada pela graça; mas sua influência deve irradiar-se, pela psique, sobre o corpo, e, conseqüentemente, sobre o homem integral, tal como deve viver neste mundo e tal como será reconstituído após a ressurreição.
A tradição escolástica, e notadamente o pensamente tomista, distinguirá três níveis na alma humana: a alma vegetativa que governa as funções elementares de nutrição e reprodução, de movimento bruto; a alma sensitiva que rege os órgãos dos sentidos; a alma racional, da qual dependem as operações superiores de conhecimento (intellecttus) e de amor (appetittus). Não entraremos aqui, de modo algum, nas divisões ulteriores em forças, faculdades, etc.
É por essa alma racional que o homem se distingue dos outros animais e se diz à imagem e semelhança de Deus. No extremo de sua perfeição, alcança a mens, a parte mais elevada da alma, destinada a receber a graça, a tornar-se templo de Deus e a gozar diretamente da visão beatífica.
O sentido místico de alma desenvolveu-se na tradição cristã. O nível espiritual alcançado pelos místicos não está ligado de modo algum à psicologia – sua alma é animada pelo Espírito Santo.
A alma apresenta diferentes patês de níveis de atividades e de energia. Depois de São Paulo, os místicos distinguem o princípio vital do princípio espiritual, o psíquico ou pneumático; só o homem espiritual é movido pelo Espírito santo. Fazendo alusão à palavra de Deus, São Paulo compara-a a um gládio que penetra até o ponto de divisão da alma e do espírito (Hebreus, 4:12). Reconhece-se como necessária a transformação espiritual, para revestir o homem novo (Efésios, 4:23).
Quer se trate de Clemente de Alexandria ou de Orígenes, os Padres gregos retomarão as divisões propostas por Plotino, segundo o qual convém que se retenha três tipos de homens: o sensível, o racional, o inteligível, ou seja, três níveis de hominização.
Segundo Guillaume de Saint-Thierry, esse três tipos de homens encontram-se nos conventos. A estabilidade jamais é rigorosamente adquirida; daí essas passagens constantes entre os dois últimos estados: racional e espiritual.
A cada estado corresponde uma qualidade do amor, proporcional à medida da união a Deus.
De um ponto de vista psicanalítico, tendo mostrado que a alma é um conceito de múltiplas interpretações, Jung dirá que ela

corresponde a um estado psicológico que deve gozar de uma certa
independência nos limites da consciência… A alma não coincide com a totalidade
das funções psíquicas. (Designa) uma relação com o inconsciente e também… uma
personificação dos conteúdos inconscientes… As concepções etnológicas e
históricas da alma mostram claramente que ela é, antes de mais nada, um conteúdo
relativo ao sujeito, mas também ao mundo dos espíritos, o inconsciente. E é por
isso que a alma sempre tem em si algo de terreno e de sobrenatural.

Terrestre, por ser posta em contato com a imagem maternal de natureza, de terra; celeste, porque o inconsciente almeja sempre ardentemente a luz da consciência. Desse modo, a anima exerce uma função mediadora entre o ego e o self, sendo que este último constitui o núcleo da psique.
A anima, de acordo com Jung, comporta quarto estágios de desenvolvimento: o primeiro, simbolizado por Eva, coloca-se no plano instintivo e biológico. O segundo, mais elevado, conserva seus elementos sexuais. O terceiro é representado pela Virgem Maria, em quem o amor alcança totalmente o nível espiritual. O quarto é designado pela Sabedoria. Qual o significado desses quatro estágios? A Eva terrena, considerada enquanto elemento feminino, progride em direção a uma espiritualização. Se admitimos que tudo o que é terreno tem sua correspondência no celeste, a Virgem Maria deve ser considerada como a face terrena da Sophia (grego: sabedoria, ciência) que, por sua vez, é celeste.
Assim, vemos desde logo que a alma individual deve obrigatoriamente percorrer essas quatro etapas. A Eva que existe em nós é chamada a purificar-se num movimento ascensional a fim de imitar a Virgem Maria, descobrindo no self a criança de luz (o puer aeternus), seu próprio sol.
Reteremos ainda uma outra definição dada por Jung:

A anima é o arquétipo do feminino que desempenha um papel muito especial no
inconsciente do homem.


Se a anima é o índice feminino do inconsciente do home, o animus, segundo Jung, é o índice masculino do inconsciente da mulher; ou, ainda, a anima é componente feminino da psique do homem e o animus o componente masculino da psique feminina. A alma, esse arquétipo do feminino, é ativa em maior ou menor grau, conforme as épocas históricas.
Na tradição das artes mágicas, o homem pode vender sua alma ao diabo para obter em troca aquilo que desejar nesta terra. Sob múltiplas formas, é o pacto de Fausto com Mefistófeles. Mas uma lenda alemã acrescenta que o homem que tiver vendido sua alma já não possui sombra. Será isso um eco das crenças nas duas almas, no duplo dos antigos egípcios? Não será, mais provavelmente, uma forma de simbolizar o fato de o homem ter perdido toda existência própria? A sombra seria, nesse caso, o símbolo material da alma assim abandonada, que pertence doravante ao mundo das trevas e que já não pode se manifestar sob o sol. Ausência de sombra: sinal de que já não há nem luz nem consistência.
Concepções tão diversas da alma e das almas, das quais só o enunciado encheria muitos volumes, traduzem-se melhor nas obras de arte, nas lendas, nas imagens tradicionais que são outros tantos símbolos das realidades invisíveis atuantes no homem. Esses símbolos permaneciam cerrados se não fizesse referência às crenças sobre a alma alimentada pelos povos que os imaginaram.
O que fizermos foi apenas esboçar, muito por alto, algumas dessas crenças, no intuito de sugerir ao intérprete de símbolos que use muitas reservas e matizes, sempre que falar dos símbolos da alma. De que alma se trata? A famosa discussão sobre animus e anima, apesar da sutileza de um Henri Brémond e de um Paul Claudel, está longe de ter exprimido todo o conteúdo de intuições humanas, tão ricas em sua incoerência, em relação a esse princípio vital que faz mais do que simplesmente unir uma porção de matéria e um sopro de espírito, pois une-os em um mesmo sujeito.

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