Poemas sobre a deusa e o feminino

O trovão, mente perfeita (Biblioteca de Nag Hammady):

“Sim, eu sou a primeira e a última.
Sou a honrada e a
desdenhada.
Sou a meretriz e a sagrada.
Sou a esposa e a virgem.
Sou (a
mãe) e a filha.
Sou os membros de minha mãe…
Sou o silêncio
incompreensível e a idéia cuja lembrança é freqüente.
Sou a voz cujo som
reverbera e a palavra que se repete.
Sou a expressão vocal de meu
nome.“

Cilindros de Gudea (3000 A.E.C.)

“Quando para o touro selvagem, para o
senhor, eu me tiver banhado,
Quando para o pastor Dumuzi, eu me tiver
banhado,
Quando com … meus lados eu tiver enfeitado,
Quando com âmbar
minha boca eu tiver coberto,
Quando com ‘kohl’ meus olhos eu tiver
pintado,
E então em sua mãos claras minhas costas tiverem
aconchegado,
Quando o senhor, deitado ao lado da santa Inana, o pastor
Dumuzi
Com leite e creme o colo tiver sido amaciado …,

Quando sobre ele minha vulva suas
mãos ele tiver pousado,
Quando como seu barco negro, ele tiver …,
Quando,
como seu barco estreito, ele tiver trazido vida a ela,
Quando sobre o leito
ele me tiver acariciado,
Então acariciarei meu senhor, um doce destino
escolherei para ele,
Acariciarei Shulgi, o fiel pastor, um doce destino
escolherei para ele,
Acariciarei suas costas, o pastor de todas as
terras,
Eis o que decretarei para o seu destino.
O rei dirige-se com a
cabeça erguida ao colo santo,
Ele se dirige com a cabeça erguida ao colo
santo de Inana,
O rei vindo com a cabeça erguida,Vindo à minha rainha com a
cabeça erguida…
Abraça a Hieródula…”

Esse texto, Cilindros de Gudea, faz parte do período sumério antigo. A poesia é escrita a respeito de Inana, talvez a mais antiga deusa da paixão, do amor e da morte. Dumuzi era o rei protetor de Erech, que veio a ser conhecido como o primeiro soberano a se casar com Inana no rito do matrimônio sagrado (Hiero Gamos). Literalmente, o nome significa “filho piedoso”. As reticências no texto indicam pedaços das tabuinhas de barro destruídas, ou que não são traduzíveis.
O termo Hieródula é comumente usado em descrições da prostituta sagrada. Literalmente, significa “serva sagrada”. É empregado por eruditos para designar oficiantes religiosas cujas funções incuíam ritos sexuais. A apalavra deriva da raiz grega hieros, que significa sagrado ou santo, e essa palavra, por sua vez, relaciona-se a uma forma anterior, eis, para “palavras denotando paixão” (American Heritage Dictionary).

Enheduana, sacerdotisa da deusa da lua Inana

Enheduana foi a primeira escritora da história, cujo nome e trabalho foram preservados. Enheduana era uma sacerdotisa da deusa da lua (nascida em torno de 2300 A.E.C.). Sua poesia assemelha-se a um diário pessoal, repleto de adoração à deusa da Luz, de sublevações políticas, de sua expulsão do templo e se seu retorno a ele. Escreve com sensualidade e intimidade sobre a deusa do amor Inana.
A acádia Enheduana foi a primeira princesa da história a tomar o posto de Alta Sacerdotisa. Ela também foi a primeira autora da literatura universal, devido ao fato de ser ela a primeira a assinar as suas obras. Ela é, freqüentemente, identificada como filha do rei Sargão da Acádia, mas tal atribuição não significa que fosse, de fato, sua descendente.
Enheduana é conhecida como a autora de 42 hinos relativos a templos acádios em diferentes cidades e três hinos (poemas narrativos, em sua maioria) à Inana, dos quais há fragmentos (Ninmeshara, Inninshagurra e Nimehussa), além de conter a obra “A Ascensão de Inan” (ou “O Despertar de Inana”).
Enheduana é, geralmente, considerada como portadora de enorme erudição. a ´rimeira prova arqueolófica de sua existência consiste num disco de alabastro (hoje localizado no Museu da Universidade de Pensilvânia, EUA) descoberto por Sir Leonard Woolley, em 1925.
Inana era a deusa suméria do amor, do erotismo, da fecundidade e da fertilidade, entre os antigos Sumérios, sendo associada ao planeta Vênus. Era especialmente cultuada em Ur, mas era alvo de culto em todas as cidades sumérias. Essa deusa Inana, é cognata das deusas semitas da Mesopotâmia/Babilônia (Istar) e de Canaã (Astarte e Anat), tanto em termos de mitologia quanto de significado. Dia 2 de janeiro é tradicionalmente consagrado a esta deusa.
Surge em, praticamente, todos os mitos, principalmente, pelo seu caráter de deusa do amor (embora seja referida, por vezes, como a virgem Inana); por exemplo: como a deusa se apaixonou por Dumuzi, tendo este morrido, a deusa desceu ao mundo dos mortos para resgatá-lo, a fim de que ele pudesse dar vida à humanidade, agora transformado em deus da agricultura e da vegetação.


“Senhora de todas as essências, cheia
de luz,boa mulher, vestida de esplendor,
que possui o amor do céu e da
terra,
amiga de templo de An,
tu usas adornos maravilhosos,
tu desejas
a tiara da alta sacerdotisa
cujas mãos seguram as sete
essências.”

“Ó minha senhora, guardiã de
todas as boas essências,
tu as reuniste e as fizeste emanar de tuas
mãos.
Tu colheste as essências santas e as trases contigo,
apertadas em
teus seios.”

Enheduana, em seu diário de poesias, experimenta cólera e fúria para com a sua deusa do amor, a deusa da lua em sua fase negra:


“Como dragão, encheste a terra com veneno,
Como
trovão, quando bradas sobre a terra,
árvores e plantas casem diante de
ti.
És o dilúvio descendo da montanha,
Ó deusa primeira,
Inana, deusa
da lua, que reina sobre o céu e a terra!
Teu fogo espalha-se e cai sobre a
nossa nação.
Senhora montada numa fera,
An te dá qualidades, poderes
sagrados,e tu decides.
Estás em todos os nossos grandes ritos.
Quem pode
compreender-te?”

A sacerdotisa da lua percebe a ausência de amor quando a deusa não está presente na vida das pessoas:


“… tu o ergueste o pé e abandonasteo celeiro da
fertilidade.
As mulheres da cidade não falam mais e amor com seus
maridos.
De noite, elas não fazem amor
Elas não se despem mais diante
deles,
revelando tesouros íntimos.
Grande filha de Suen,
impetuosa vaca
selvagem, senhora suprema que domina An,
que ousa não
venerar-te?”

Aparentemente novo governante, Lugalane assumiu o poder e mudou os rituais sagrados. Enheduana, na qualidade de alta sacerdotisa, foi banida do templo. Ela escreve sobre seu desespero e sobre a perda de sua beleza feminina quando já não sentia mais ligação com a sua deusa do amor:


“Tu pediste-me para entrar no claustro santo, o
girapu,
e eu entrei nele, eu, a alta sacerdotisa Enheduana!
Eu carreguei a
cesta do ritual e cantei em seu louvor.
Agora encontro-me banida, em meio aos
leprosos.
Nem mesmo eu consigo viver contigo.
Sombras penetram a luz do
dia,
a luz escure-ce à minha volta,
sombras penetram a luz do
dia,
cobrindo o dia com tempestades de areia.
Minha suave boca de mel
torna-se repentinamente confusa.
Minha linda face agora é pó.”

Enheduana retorna à condição inicial, e recupera novamente a alegria, a beleza e o relacionamento com a deusa:


“A primeira senhora da sala do
tronoaceitou a canção de
Enheduana.
Inana a ama novamente.
O dia
foi
bom para Enheduana, pois ela
vestiu-se de jóias.
Como os
primeiros raios
de luar sobre o
horizonte,
Quão exuberantemente ela
se vestiu!
Quando Nana, pai de
Inana,fez sua aparição,o palácio abençoou
Ningal,
mãe de Inana.
Da soltira da
porta celeste veio à
palavra:‘Bem-vinda’!”

Inana (Suméria), Istar (Babilônia)

Antigo registro da deusa provém da Suméria, a qual freqüentemente se considera o berço da civilização. Tabuinhas de barro com inscrições cuneiformes (Cilindros de Gudea) contam estórias da deusa Inana, rainha do Céu e da Terra, a Estrela da Manhã e da Tarde. Inana, proeminente deidade no panteão sumério, trouxe à terra, no Barco do Céu, presentes de civilizações e cultura, tais como música, artefatos, discernimento e verdade. Trouxe também a arte de fazer amor, conquista cultural. Esses exto antigps também introduzem a prostutita sagrada como hieródula.


“O fiel pastor, aquele do cântico
doce,
Entoará um
cântico ressonante para ti,
Nobre rainha, tu que
adoças todas as
coisas,
Inana, isso trará júbilo ao teu coração.
Nobre Rainha, quando
entras na estrebaria,
inana, a estrebaria
rejubila contigo,
Heiródula,
quando entras no aprisco*,
A estrebaria rejubila-se
contigo…”

* Aprisco: em sumérico, a palavra para ‘aprisco’, ‘útero’, ‘vulva’, ‘lombo’ e ‘colo’ é a mesma.

Essa multifacetada deusa do amor, da paixão, da guerra e da morte era chamada Istar pelos babilônios. Sua atividade sexual era enfatizada em descrições dela como “a doce e sonora dama dos deuses”, apesar de ser conhecida também por sua cruel e implacável volubilidade em relação a seus amantes. Uma vez que era ela quem trazia o amor e a felicidade sexual, ela também detinha o poder de retirá-los. Sem essa deusa sedutora de seios fartos, nada que dissesse respeito ao ciclo da vida poderia consumar-se. Quando Istar faz sua descida ao Mundo dos Mortos, nenhuma paixão é sentida na terra; a esterilidade espalha-se sobre a terra, situação semelhante àquela que a sacerdotisa da lua, Enheduana, desceveu. A poetisa explica:


“Desde que a senhora Istar desceu à terra
Sem-Retorno
O touro não cobre mais a vaca, o asno não se curva mais sobre sua
fêmea,
O homem não se curva para a mulher na rua,
O homem dorme em seu
aposento
A mulher dorme sozinha.”

Novamente, em seu retorno à terra, a vida e o amor são despertados, como Istar exclama em uma ode:


“Eu volto o macho para a fêmea:
Eu sou aquela que
enfeita o macho para a fêmea,
Eu sou aquela que enfeita a fêmea para o
macho.”

Istar/Ishtar é a deusa dos acádios, herança dos seus antecessores sumérios, cognata da deusa Asterote dos filisteus, de Isis dos egípcios, Inana dos sumérios e da Astarte dos gregos. Mais tarde, essa deusa foi assumida, também, na mitologia Nórdica como Easter, a deusa da fertilidade e da primavera. Istar era a deusa-irmã de Shamash e filha do importante deus lua Sin. Esta deusa é representada pelo planeta Vênus.
Considerados umas das maravilhas do mundo, os Portôes de Ishtar, na Babilônia, foram transportados para um museu na Europa (Museu de Berlim). Uma réplica encontra-se no Iraque.
Todo o culto aos deuses era (ou ainda é) feito através de rituais. Istar tinha alguns rituais de caráter sexual, uma vez que era a deusa da fertilidade, outros rituais tinham a ver com libações* e outras ofertas corporais.
Um ritual ocorria no equinócio da primavera, onde os participantes pintavam e decoravam ovos (símbolo da fertilidade) e os escondiam e enterravam em tocas nos campos. Este ritual foi adaptado pela Igreja Católica no princípio do primeiro milênio E.C., fundindo-a com outra festa popular, a Páscoa judaica. Mesmo assim, o ritual da decoração dos ovos de páscoa mantém-se um pouco por todo o mundo, nesta festa, na altura do equinócio de primavera (hemisfério norte).

* libação: ato de derramar água, vinho, sangue ou outros líquidos com finalidade religiosa ou ritual, em honra a um deus/deusa ou divindade. Pode-se observar essa prática da libação na antiga Roma ou na antiga Grécia, quando os descendentes ofereciam aos seus deuses, que eram os familiares mortos, a libação do vinho, do leite e do mel para que estes pudessem sorver o alimento de que precisavam, ainda que debaixo da terra.

Astarte e Anat

Astarte é uma personagem do panteão fenício e na tradição biblico-hebraica, é conhecida como deusa dos Sidónios (I Reis 11:2). Era a mais importante deusa dos fenícios. Filha de Baal e irmã de Camos, esposa de Tamuz. Deusa da lua, da fertilidade, da sexualidade e da guerra, adorada, praticamente, em Sidom, Tiro e Biblos.
Os seus rituais eram múltiplos, passando por ofertas corporais de teor sexual, libações e, também, a adoração das suas imagens ou ídolos. O seu principal culto ocorria no equinócio da primavera (outono no hemisfério sul), e era altura de grandes celebrações à fertilidade e sexualidade. O sexualismo e erotismo ligados ao seu culto fazia dela uma deusa muito adorada entre os povos da época, exatamente pelo seu teor. Talvez, seja esse o motivo que levou o rei Salmoão a adorar esta deusa (I Reis 11:15), contrariando o seu Deus Jeová. Os locais de culto a essa deusa encontravam-se na terra dos filisteus, em Ekron (I Samuel 31:10).
Em Sidom, o culto era dividido, principalmente entre dois deuses Eshmund e Astarte. Astarte, como já disse, era esposa do deus Tamuz, que aparece na bíblia em Ezequiel 8:14.
Esta divindade referenciada na bíblia, é uma herança mitológica da história dos povos da suméria (sinear, na bíblia) e dos acádios (Gênesis 10:10), onde Astarte era chamada de Istar/Ishtar e/ou Inana. Posteriormente, para os gregos esta divindade foi chamada de Afrodite e Hera, enquanto que, para os egípcios, esta divindade ficou conhecida como Isis, ou, como outros defendem Hator. Esta apareceu pela primeira vez nesta mitologia depois da 18ª dinastia, no relato da batalha entre Horus e Seth em que a sua identidade poderia ser equiparada com Anat.
Segundo a mitologia suméria e acádia Istar (Astarte) era irmã de Shamash, ao qual a bíblia se refere como Camos. Em mais de um versículo na bíblia estes dois nomes aparecem juntos (I Reis11:36; II Reis 23:13).
O nome Astarte foi a mais importante das numerosas divindades fenícias e a única que permaneceu inamovível na sua rica mitologia, apesar das profundas e contínuas mudanças no culto que resultaram de diversas influências oriundas de toda a área do Mediterrâneo, recebidas por este povo de navegantes. A deusa era uma representação das forças da fecundidade e, como tal, foi adorada sob variadíssimos aspectos. Todos esses aspectos tinham em comum a imagem de uma deusa amorosa, bela, fecunda e maternal. Chamaram-lhe Kubaba-Cibeles na Síria do Norte. Esta e as restantes divindades fenícias eram adoradas em santuários, mas o seu culto não carecia de esculturas religiosa, pelo que, muitas vezes, elas faltavam nos templos. A sua sede era uma simples edra ou pilone no centro do lugar sagrado. A proteção divina na vida doméstica era invocada em estatuetas de material tosco, inacabadas, ou em amuletos de inspiração egípcia, como, por exemplo, o célebre escaravelho solar das pinturas faraônicas.
Anat, ou Anta, era uma deusa semítica do oeste. Na mitologia egípcia, Anat era representada como uma mulher, tendo na cabeça a coroa do Alto Egito com suas penas de avestruz; traz uma clava numa das mãos e, na outra, uma lança e um escudo.
Sabe-se que o seu culto existiu no Antigo Egito desde o Império Médio. Durante o 2º Perído Intermediário, época na qual o Egito caiu nas mãos de povos do Oriente Médio, os Hicsos, esta divindade tornou-se muito popular entre os reis hicsos. Mais tarde, os Ramésidas introduziram-na oficialmente no panteão.

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