Cosmogonia E Antropogonia – As Origens

Nascido em Ascra, na Beócia, junto ao Monte Hélicon, consagrado a Apolo e às musas, Hesíodo faz interessante contraponto com o grande Homero, nascido quase dois século antes.
Enquanto o autor da Ilíada e da Odisséia fala de feitos dos heróis, seres superiores ao comum dos homens, possuidores da Timé, honra pessoal, e da Areté, a excelência, em constante contato com os deuses, sendo por estes ajudados ou sofrendo deles oposição, Hesíodo canta o trabalho como meio de aperfeiçamento humano, e a justiça divina, Diké, como supremo bem.
Em sua Teogonia, fala não só da origem dos deuses e sua geração, estruturando assim a tradição guardada pelos versos da epopéia homérica, mas revela também, inspirado pelas musas, às quais reverencia, a origem do universo, criando uma verdadeira cosmogonia.
Do ponto de vista da psicologia analítica de Jung o mito cosmogônico é, em essência, o mito do nascimento da consciência. O cosmo existe na medida em que existimos. A gênese do cosmos é a gênese da consciência.
Para clarificar as noções junguianas em relação à cosmogonia faz-se necessário que se articule os conceitos de arquétipo e de inconsciente coletivo à mitologia. A perspectiva junguiana é uma constante desliterazação dos fatos do cotidiano, uma elaboração de eventos concretos através de uma atitude simbólica. A mitologia é muito útil nesta abordagem, visto que ela é constituída de imagens simbólicas. Como enfatiza J. Hillman, procuramos não uma psicologização da mitologia, mas uma mitologização da psicologia. Isto porque a atitude lógica e conceitual não é a mais importante e definitiva, mas sim a atitude simbólica, para a qual as imagens mitológicas muito podem contribuir.
Jung entende os arquétipos como as estruturas básicas do inconsciente coletivo, comum a toda a humanidade. Os arquétipos não são perceptíveis em si próprios, assim como a coisa kantiana, em si, não é perceptível. Percebemos, entretanto, as imagens arquetípicas, as manifestações destes arquétipos, ativados pelas experiências do cotidiano. As imagens arquetípicas, em sua emergência do inconsciente coletivo, plasmando percepções externas com estruturas existentes a priori, os arquétipos, são sempre simbólicas, isto é, contêm um aspecto conhecido, que remete à concretude do signo, e um aspecto desconhecido, sempre, como uma pedra preciosa de várias faces, que, por mais que a apalpemos, vemos apenas alguns dos lados, outros permanecendo desconhecidos.
As mitologias foram literalizadas na própria Grécia Antiga, como é sabido. Heródoto, no século VIII, foi talvez o primeiro a explicar mitos como fatos históricos. Explicados como fenômenos derivados do curso solar, por Max Müller, ou como outro fenômenos da natureza, ou evemerizados de uma forma ou de outra, os deuses chegaram até nós.
Freud procurou em uma das civersas versões do Mito de Édipo, preservada na tragédia sofocleana, as bases fundamentais para a estruturação da consciência. Jung procurou nos mitos as expressões do desenvolvimento psicológico ao qual chamou processo de individuação.
Percebemos assim, em nosso tempo, um resgate do aspecto simbólico do mito. Jung é bem enfático a este respeito quando declara que os deuses da Antiguidade não morreram, mas permanecem no inconsciente coletivo e, quando reprimidos, manifestam-se de forma patológica. O culto das drogas e do álcool na sociedade industrial apolínea ou a adesão compulsiva ao sexo grupal nos anos 1970 são fenômenos que podem ser lidos como uma manifestação aptológica de Dioniso, o deus do êxtase e do estusiasmo. Hillman lembra que nossas aflições nos remetem a um complexo, que por seu tunro aponta para um deus. Ou dizendo de outro modo:
Nesse particular, a teoria, bem como a terapia arquetípica de Jung, é tradicional e grega. Pergunda a ela: “O que existe na natureza mesma da minha perturbação e da minha aflição que é necessário, autoprovocado (causado pelo eu?)… Outras terapias… fazem a pergunta mais técnica do ‘como’, a terapia arquetípica faz a pergunta mais filosófica ‘o quê’ e finalmente a pergunta religiosa ‘quem’ qual deus ou deusa, que daimon está atuando internamente nauqilo que acontece” (Hillman, 1992: 23-24).
Todas estas associações derivam do fato de os mitologemas representarem símbolos essenciais do processo de individuação, ou do desenvolvimento da personalidade, o processo “que leva o indivíduo a ser o que realmente é”. O processo de individuapção inicia-se com a diferenciação do ego dos conteúdos do inconsciente coletivo, ainda durante o período uterino, quando o ego nada mais é do que ilhotas de consciência que gradualmente se coalescem, formando uma unidade cada vez mais cólida. É este processo que aparece consfigurado nos vários mitos cosmogônicos. Na verdade, o processo de individuação não é uma tarefa reservada à segunda metade da vida, como inicialmente se pensou. No terceiro mês de vida fetal, após a formação da retina do feto, a ultra-sonografia já detecta o fenômeno R.E.M (rapid eye moviments) indicando a presença de sonhos, portanto de psiquismo fetal. Certos sonhos do adulto podem dizer respeito a esse período de vida fetal.
Em sua Teogonia, Hesíodo canta que no início era o Caos, o vazio primordial; depois veio Géia, a terra, tártaro, a habitação profunda, e Eros, a força do desejo. O Caos deu origem a Érebo (a escuridão profunda) e a Nix (noite). De Géia nasceram Úrano (o céu), Montes e Pontos (o mar) (Junito Brandão, 1986: 183ss).
Kérenyi relata uma belíssima variação do mito cosmogônico hesiódico, preservada pelos órficos. A tradição órfica reza que princípio era a noite, Nix, um pássaro negro que depositou o ovo prateado primordial. Este ovo, em se abrindo, gerou o Caos. Segundo Kérenyi, caos quer dizer: aquilo que se abre. Sua parte superior é Úrano, o céu a parte de baixo, Géia, a terra. Do ovo primordial, nasce, brilhante, Eros, o Protógenos, o primeiro nascido.
Percebemos em ambas as cosmogonias uma predominância do mundo ctônio, o telúrico e obscuro. Em Hesíodo, a cosmogonia se desenvolve de baixo para cima, das trevas para a luz, do Caos, passando pelos titãs e gigantes, até chegar à terceira geração divina, a dos olimpiano, regidos por Zeus, o deus luminoso do céu (Junito Brandão, 1986: 331).
A associação do inconsciente com o obscuro é imediata, assim como a luz é característica arquetípica dos processos conscientes. Estados patológicos limítrofes, nos quais se manifesta automatismos inconscientes, são denominados crepusculares, como o estado crepuscular histérico.
Entretanto, também a criatividade psicológica se dá em estado crepuscular; as instituições, as percepções novas que contrariam as repetições cansativas da consciência focada no dia-a-dia, brotam de fatores criativos do inconsciente.
Por isto se fala em análise em regressão terapêutica. Não se cria um novo cosmos sem se voltar ao Caos, ou na metáfora alquímica tão cara aos junguianos: não se pode chegar ao ouro filosófico sem se voltar à prima materia. a experiência transformadora da análise pela transferência ou pelos sonhos se dá sempre pela emoção, mediada sempre pelo símbolo. Jung criticou sempre a ênfase exagerada na Déese Raison iluminista. Pontuou, ao contrário, o conceito, buscado em Paracelso, da lumen naturae, a luz da natureza, que brilha à noite como as estrelas.
Úrano e Géia constituem o primeiro casal parental cósmico, em coabitação perpétua. Úrano impedindo seus filhos de nascerem, os mantém no seio de Géia, até que ao deitar-se sobre ela é castrado pelo titã Crono, o filho caçula, que para tal faz uso de uma foice. Crono casa-se com sua irmã Réia e passa a reinar no universo.
Crono passa a comportar-se como seu pai, pois, como ele, foi advertido por presságios oraculares provenientes de Géia de que um filho seu iria destroná-lo. Passa então a devorar seus filhos tão logo nasciam. Novamente é o filho mais novo que irá, com auxílio de sua mãe, destronar o pai. No caso, é Zeus, que agrilhoa Crono e liberta seus irmãos devorados, fazendo Crono vomitá-los através de um líquido emético oferecido por sua irmã Méthis.
Consolidado seu poder, após dura batalha com os gigantes, a Gigantomaquia, zeus casa-se com Méthis. O que consideramos da maior importância simbólica é que Zeus é advertido de que Méthis poderia dar à luz um sucessor seu, como diz o oráculo: “um jovem com coração de conquistador que será senhor dos deuses e dos homens”. Assim advertdo, Zeus se comporta exatamente como seus ancestrais Úrano e Crono: Zeus devora Méthis!
Zeus, o princípio do relativismo no politeísmo grego, o pai dos deuses e dos homens, como o chamou Homero, comprota-se aqui exatamente como seus ancestrais masculinos das duas gerações anteriores, devorando os filhos, inseguro e temeroso de renovação. A narrativa mitológica revela de forma clara o que Freud chamou de compulsão de repetição.
Na verdade, verificamos, desde o primeiro par arquetiípico dos pais do mundo Úrano e Géia, uma interessante polarização entre o arquétipo da Grande Mãe, Géia, ou posteriormente Réia, e os arquétipos masculinos Úrano, Crono e Zeus. O arquétipo da Grande Mãe é a matriz original, o arquétipo do inconsciente em seu aspecto estático, como lembra Jung citando Fausto, de Goethe: o reino das mães.
Já Úrano, Crono e Zeus simbolizam o dinamismo do arquétipo do masculino, sempre se movendo em direção à consciência, mas se inserindo nas dimensões do espaço e do tempo. Daí constante temor da sucessão temporal, a atitude agressiva de castrações e devoramentos. Este movimento contrasta com a imobilidade da Grande Mãe, a senhora atemporal dos oráculos, imutável.
O aspecto fálico, mental e penetrante do arquétipo do masculino lhe dá também características de temporalidade. Daí ser o arquétipo do espírito ligado à tradição, e às expressões como Zeitgeist, espírito do tempo, e espírito burguês do Brasil, por exemplo.
O movimento de devoramento ficilida, típico da tradição cultural falocêntrica, tem, entretanto, um fim. Zeus sente um intesa cefalgia, após o devoramento de Méthis. São as dores do parto, pois de sua cabeça nasce a mulher semelhante a um homem, prevista pelo oráculo: é Palas Atená, totalmente armada para o combate, em armadura fulgurante.
Dentro de uma leitura arquetípica, chamríamos atená de uma figura de Anima de Zeus. A Anima, a feminilidade inconsciente do homem, predide seu processo de individuação. Só após a elaboração da Anima, a atitude de devoramento competitivo típico do padrão patrilineal cessa, e um equilíbrio reina entre os olímpicos, com seus deuses e seis deusas, sob a égide de Zeus.
A cosmogoniade Hesíodo revela o drama mítico do surgimento da consciência numa série de imagens arquetípicas. Já na primeira geração divina se organiza a primeira estrutura arquetípica após o Caos das origens: são os pais do mundo, Úrano e Géia, mitologema frequente em várias mitologias.
Os pais do mundo vão aparecer namitologia egípcia, com o pai Geb, a terra, em coabitação perpétua com a mãe Nut, o céu estrelado. Para separá-los e para que o processo de criação tenha sequência, aparece Shu, a atmosfera, que cumpre aqui a tarefa do titã Crono. A cultura nagô africana tem a tradição dos pais orignais em coabitação num jarro redondo, a cabaça, Obatalá, e Oduduá, no princípio do universo.
O motivo dos pais do mundo é motivo arquetípico, e está presente na noção psicanalítica da cena primal. Naturalmente, a cena primal não fala na verdade de vivências concretas que a criança tem de seus pais tendo sexo, mas da fantasia que tem deste fato, e da importância destas fantasias para a organização da personalidade.
O matricídio e o parricídio simbólicos são fundamentais para o gradual estabelecimento da identidade como ser separado já nos estágios iniciais do processo de individuação. Assim a consciência pode evoluir das trevas iniciais para a luz, do Caos a Zeus, do teratomorfismo ao antropomorfismo (Junito Brandão).
Entretanto, no processo analítico, é importante não dissociarmos de nossas origens, de nosso Caos original, pois somente dele pode se estruturar um novo cosmos. Por isso toda análise do inconsciente é uma anamnese, um processo de reconstrução, não uma anamnese profana, mas um recordar sagrado, um autêntico epistrophé, retorno às origens, regresso às idéias arquetípicas fundamentais.
Por isto os gregos cultuavam Mnemósine, a deusa da memória, patrona do cohecer e do re-conhecer. Por isto, Hesíodo, no início de sua Teoogonia, faz um canto de louvor às musas, protetoras do Monte Hélicon, onde pastoreava seu rebanho. As musas não são apenas inspiradoras da arte poética, mas como filhas de Zeus e Mnemósine, a memória sagrada, presidem também a própria arte da epistrophé. Devemos resgatar, portanto, as nossas cosmogonias, integrando a luz da consciência às obscuridades das origens.
Fonte: Boechat, Walter. ”Cosmogonia e antropogonia – As origens”, IN: A Mitopoese da Psique – Mito e Individuação. Petrópolis: Ed. Vozes, 2008.
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