A noiva da serpente macho – Joseph Campbell

A Deusa-Mãe Eva

Ninguém familiarizado com as mitologias da deusa dos mundos primitivos, antigo e oriental consegue ler a Bíblia sem reconhecer, em cada página, certas equivalências. Mas estão transformadas, para fornecer argumentos contrários às fés anteriores.

Na cena de Eva junto à árvore, por exemplo, nada é dito para indicar que a serpente que apareceu e falou com ela era uma divindade legítima, reverenciada no Levante durante pelo menos sete mil anos antes da composição do Livro de Gênesis. Há no Museu do Louvre um vaso verde entalhado em pedra-sabão, inscrito por volta de 2025 A.E.C. pelo Rei Gudea de Lagash, dedicado a uma manifestação suméria tardia do consorte da deusa, sob seu título real de Ningizzida, “Senhor da Árvore da Verdade”. Duas serpentes copulando, enroscadas num pilar à maneira do caduceu de Hermes, deus grego do conhecimento místico e do renascimento, são mostradas através de um par de portas abertas que estão sob a custódia de dois dragões alados de um tipo conhecido como leão-pássaro (figura 1[1]).

A capacidade da serpente de mudar de pele e assim rejuvenescer, transformou-a, em todo o mundo, em símbolo de mestre do mistério do renascimento. Por sua vez, a lua – que cresce mas também míngua, perde sua sombra e novamente cresce – é o símbolo celeste desse renascimento. A lua é a senhora e a medida do ritmo gerador de vida do útero. Portanto, também o é do tempo, através do qual os seres nascem e morrem. É senhora do mistério do nascimento e igualmente da morte. Os dois, por sua vez, são aspectos de um único estado da existência. A lua é a senhora das marés e do orvalho que cai à noite para refrescar o verde que os animais pastam.

Mas a serpente também é a senhora das águas. Vivendo na terra, entre as raízes das árvores, freqüentando fontes, charcos e cursos d’água, desliza em movimentos ondulantes. Ou sobe igual ao cipó nos galhos, onde se pendura como uma fruta mortal. A sugestão fálica é imediata e, na sua capacidade de engolir, também sugere o órgão feminino, manifestando em conseqüência uma imagem dual, que atua de modo sub-receptício sobre os sentimentos. Igualmente há uma associação dual do fogo e da água com o efeito de seu bote: o dardo da língua bífica e a queimadura letal de seu veneno. Quando imaginada mordendo sua cauda, como uróboro mitológico, sugere as águas que em todas as cosmologias arcaicas circundam – também sustentam e permeiam – o círculo flutuante da ilha Terra.

A figura 2[2], de uma pintura em um vaso elamita, do período sassânida tardio (226 – 641 E.C.), mostra também o antigo guardião da Árvore do Mundo, enroscado em seu tronco. Nessa forma, o aspecto perigoso e alarmante da presença é aparente. Entretanto, como a serpente do Paraíso, Ningizzida é em geral benévolo para aqueles que se aproximam de seu santuário com o devido respeito. A figura 3[3], de um antigo selo acadiano de cerca de 2350-2150 A.E.C., apresenta a divindade em forma humana, sentada no trono, com seu emblema caduceu atrás e a chama do altar na frente. Um devoto, o dono do selo, é conduzido à sua presença por uma divindade coroada, seguida de uma figura carregando um balde, com uma serpente pendendo da sua cabeça, que é um servidor do deus destronado. Corresponde aos guardiões do tipo leão-pássaro do caso de Gudea. A lua, a fonte das águas da vida, está suspensa acima da taça elevada na mão do deus, onde o iniciado irá beber.

Aqui, é óbvia a associação entre o Senhor Serpente, a taça da imortalidade e a lua. É também um motivo comum a todas as mitologias antigas. Ou seja, a aparência múltipla de um deus em seus aspectos simultaneamente superior e inferior. O guardião no portão, admitindo ou excluindo aspirantes, é uma manifestação atenuada do poder da própria divindade. Ele é o primeiro aspecto que vivencia quem dela se aproxima. Ou, dito de outra maneira, é o aspecto do deus que põe à prova podem aparecer sob uma ou mais formas: antropomórficas, teriomórficas, vegetal, celestial ou elementar. Como no exemplo presente: homem, cobra, árvore, lua e as águas da vida, que podem ser reconhecidas como aspectos de um único princípio polimorfo, simbolizando em tudo – porém, além de tudo.

Uma série de três outros selos será suficiente para mostrar a relação desses símbolos com a Bíblia. O primeiro é o elegante exemplo sírio-hitita da figura 4[4], que mostra o herói mesopotâmico Gilgamesh numa manifestação dual, servindo de guardião de um santuário, à maneira dos leões-pássaros do vaso de Gudea. Mas o que encontramos nesse santuário não tem uma forma humana, nem animal nem vegetal. É uma coluna feita de círculos serpenteados, exibindo no topo um símbolo do sol. Tal poste ou pilar é simbólico do ponto central em torno do qual todas as coisas giram (Axis Mundi), sendo, portanto, um correspondente da Árvore da Iluminação budista no “Ponto Imóvel” no centro do mundo. Em volta do símbolo do sol, no topo da coluna, são vistos quatro pequenos círculos. Dizem que simbolizam os quatro rios que correm para os quadrantes do mundo (comparar com o livro de Gênesis 2:10-14). Aproximando-se pela esquerda está o dono do selo, conduzido por um leão-pássaro (ou querubim, como tais figuras são denominadas na Bíblia) que tem na mão esquerda um balde e na direita um ramo erguido. Segue uma deusa no papel de mãe mística do renascimento. Na parte inferior há um ornamento formado de filetes entrelaçados – um emblema que nessa arte corresponde ao caduceu.

Novamente, reconhecemos aqui os símbolos comuns do jardim místico da vida, onde a serpente, a árvore, o eixo do mundo, o eterno sol e as águas sempre vivas irradiam graça a todos os quadrantes. Nessa direção o indivíduo mortal é guiado, por uma ou outra manifestação divina, para o conhecimento de sua própria imortalidade.

No selo seguinte, figura 5[5], onde a abundância do jardim mítico é exibida, todos os personagens são do sexo feminino. As duas devotas da árvore são identificadas como uma manifestação dual da divindade ínfera Gula-Bau, cujas correspondentes clássicas são Deméter e Perséfone. A lua está diretamente acima do fruto oferecido, como na figura 3, em que aparece acima da taça. E a receptora da oferenda, que já tem um galho do fruto na mão direita, é uma mulher mortal.
Dessa maneira, percebemos que no antigo sistema mítico do Oriente Próximo nuclear – ao contrário do posterior sistema patriarcal rígido da Bíblia – uma divindade podia ser representada tanto em forma feminina quanto masculina. A própria forma qualificadora era apena a máscara de um princípio último não qualificado, além de tudo e no estado presente em todos os nomes e formas.

Tampouco há nesses selos qualquer sinal de ira divina ou perigo. Na há nenhum tema de culpa relacionado com o Jardim. A dádiva do conhecimento da vida está ali, no santuário do mundo, para ser usufruída. E ela é concedida prontamente a qualquer mortal, homem ou mulher, que estenda a mãe para pegá-la com a devida vontade e disposição de recebê-la.

Portanto, o antigo selo sumério da figura 6[6] não pode ser, como alguns eruditos acreditavam, a representação de uma versão suméria extraviada da Queda de Adão e Eva. Seu espírito é o do idílio, na visão muito anterior do jardim da inocência da Idade do Bronze, no qual os dois frutos desejados da tamareira mítica estão disponíveis para ser colhidos: o fruto da iluminação e o fruto da vida imortal. A figura feminina a esquerda, diante da serpente, é quase com certeza a deusa Gula-Bau (uma correspondente, como dissemos, de Deméter e Perséfone), enquanto a masculina à direita, que não é um mortal mas um deus – o que podemos concluir por sua coroa lunar em forma de chifre – , é com não menos certeza seu amado filho-esposo Dumuzi, “Filho do Abismo-Senhor da Árvore da Vida”, o eternamente morto e eternamente ressuscitado deus sumério que é o arquétipo da existência encarnada.

Uma comparação apropriada seria com o relevo greco-romano exibido na figura 7[7], em que a deusa dos Mistérios de Elêusis, Deméter, é vista com seu divino filho Plûtos, ou Pluto[8], sobre quem o poeta Hesíodo escreveu:


Feliz, feliz é o mortal que o encontra quando [ele] passa,
Pois suas
mãos estão cheias de bênçãos e seu tesouro transborda

Pluto, em um plano de referência, personifica a riqueza da terra, mas num sentido mais amplo é um correspondente do deus dos mistérios, Dioniso. Nos volumes anteriores, Mitologia Primitiva e Mitologia Oriental, analisamos uma série de tais divindades que são ao mesmo tempo consortes e filhos da Grande Deusa do Universo. Retornando ao seu seio com a morte (ou no casamento, de acordo com outra imagem), o deus renasce. Como a lua, que perde sua sombra, ou como a serpente, que muda de pele. Conseqüentemente, naqueles ritos de iniciação com os quais tais símbolos eram associados (como nos Mistérios de Elêusis), o iniciado, retornando em contemplação à mãe-deusa dos mistérios, separava-se mediante discernimento do faço de sua carcaça mortal (simbolicamente, o filho, que morre), identificando-se com o princípio que renasce eternamente, o Ser de todos os seres (o pai-serpente): então, no mundo onde apenas o sofrimento e a morte tinham sido vistos, o êxtase foi reconhecido como um eterno vir-a-ser.

Compare-se com a lenda do Buda. Quando ele se colocou no Ponto Imóvel sob a Árvore da Iluminação, o Criador da Ilusão do Mundo, Kama-Mara, “Desejo de Vida e Medo da Morte”, aproximou-se desafiador ameaçando sua determinação. Mas o Buda tocou a terra com os dedos da mão direita e, como conta a lenda, “a poderosa Deusa Terra estremeceu com uma centena, um milhar, uma centena de milhares de trovões, declarando: ‘Sou testemunha!’; e o demônio fugiu”. O Bem-aventurado alcançou naquela noite a iluminação. Por sete vezes sete dias permaneceu em êxtase. Nesse meio tempo, surgiu uma tremenda tempestade. O relato continua:


E um poderoso rei-serpente chamado Mucalinda, emergido de seu lugar
subterrâneo envolveu o corpo do Bem-aventurado sete vezes com suas voltas, e
expandindo seu grande capelo sobre a cabeça do Buda disse: “Não permitirei que
nem o frio nem o calor, nem os mosquitos nem moscas, nem o vento, nem o sol ou
criaturas rastejantes se aproximem do Bem-aventurado!
Depois, quando os sete
dias se passaram e Mucalinda soube que a tempestade tinha acabado e as nuvens
começavam a se dispensar, desenroscou então seus anéis do corpo do
Bem-aventurado e, assumindo a forma humana, com as mãos postadas e elevadas na
testa, prestou reverência a Buda”.

Na sabedoria e lenda do Buda, a idéia de libertação da morte recebeu uma nova interpretação psicológica, que, entretanto, não violou o espírito de suas anteriores representações míticas. Os motivos antigos foram desenvolvidos, ganhando nova função, pela associação com um personagem histórico verdadeiro que havia consumado em sua própria existência o significado daqueles motivos. Permaneceu o senso de equilíbrio entre o herói em sua busca e as forças do mundo vivente. Como ele próprio, essas forças eram em última instância apenas transformações do mistério único da existência.

Assim, na lenda do Buda, como nos antigos selos do Oriente Próximo, prevalece uma atmosfera de harmonia substancial na árvore cósmica. Nela, a deusa e seu consorte serpente dão apoio à busca de libertação, de seu ilustre filho, das cadeias do nascimento, doença, velhice e morte.

No Jardim do Éden, por outro lado, prevaleceu um espírito diferente. Pois o Senhor Deus (o nome hebraico escrito é Jeová) amaldiçoou a serpente quando soube que Adão comera do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. E ele disse a seus anjos: “Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e como e viva para sempre!’ E Jeová o expulsou do Jardim do Éden, para cultivar o solo de onde fora tirado. Ele baniu o homem e colocou, diante do Jardim do Éden, os querubins [isto é, os leões-pássaros] e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida”.[9]

O primeiro ponto que emerge desse contraste é que, no contexto do patriarcado dos hebreus da Idade do Ferro do primeiro milênio a.C., a mitologia (adotada das civilizações anteriores do neolítico e da Idade do Bronze das regiões que eles ocuparam e dominaram por um tempo) foi invertida, para produzir um argumento exatamente oposto ao de sua origem. Um segundo ponto, corolário ao primeiro, é que há uma ambivalência inerente em muitos símbolos básicos da Bíblia, que nenhuma ênfase retórica sobre a interpretação patriarcal, por maior que seja, consegue suprimir ou atenuar. Os símbolos enviam uma mensagem pictórica ao coração, que contraria precisamente a mensagem verbal enviada ao cérebro. Essa discordância nervosa existe tanto no cristianismo quanto no islamismo, nem como no judaísmo, já que compartilham do legado do Antigo Testamento.

Entretanto, a Bíblia não é a única fonte de tal ambivalência da pregação no Ocidente. Há uma igual inversão de sentido no legado da Grécia.

O Sangue da Górgona

Jane Ellen Harrison demonstrou, há mais de meio século que nos festivais agrários e cultos de mistérios da Grécia sobreviveram numerosos vestígios de uma mitologia pré-homérica. Nessa, o lugar de honra era ocupado não pelos deuses masculinos do ensolarado panteão olímpico, mas uma deusa – misteriosamente agourenta – que podia aparecer como uma, duas, três ou muitas, e era a mãe tanto dos vivos quanto dos mortos. Seu consorte tinha usualmente a forma de serpente. Seus ritos não eram caracterizados pelo espírito jovial dos jogos atléticos masculinos, da arte humanista, do convívio social, das festividades e do teatro, que a mentalidade moderna associa com a Grécia clássica. Ao contrário, tinham espírito misterioso e apavorante. Os sacrifícios não eram de bois, graciosamente engrinaldados, mas de porcos e seres humanos. Portanto, eram dirigidos para baixo, e não para cima, para a luz. E aconteciam não em templos de mármore polido, radiante na hora do alvorecer rosado, mas em arvoredos e campos sombrios, sobre valas pelas quais o sangue quente jorrava para o abismo. “Os seres adorados”, escreveu Sra. Jane Harrison, “não eram seres humanos racionais, deuses que obedeciam à lei, mas sim daimones vagos, irracionais, em geral, malévolos, coisas-espíritos, fantasmas e seres rasteiros, ainda não concebidos e formatados em divindades”.

A atmosfera dos rituais, outrossim, não era a de uma comunhão festiva, no espírito simples do do ut des, “dou-te para que me dês”, mas de livrar-se: do ut abeas, “dou-te para que partas”. Estava sempre presente, porém, a idéia de que se o aspecto negativo do dáimon fosse afastado, a saúde e o bem-estar, a fertilidade e a abundância surgiriam por si mesmos de sua fonte natural.

A figura 8[10] é de uma tabuleta votiva encontrada no Pireu, dedicada a uma forma de Zeus olímpico conhecido como Zeus Meilichios. Que o Zeus celestial – de todos os deuses! – tenha assumido a forma de uma serpente é surpreendente, pois como observa Harrison, “Zeus é um dos poucos deuses gregos que jamais aparece acompanhado de uma cobra”. Sua explicação para a anomalia é que tanto o nome quanto a figura pertenceram originalmente a um demônio local, o filho-esposo da deusa-mãe Terra, cujo local de culto, Pireu, foi tomado pelo deus supremo conquistador do panteão ária do Norte. Ao nome de Zeus foi acrescentado então o do espírito-da-terra local, como um epíteto. E os ritos anuais de primavera do culto do demônio também foram assumidos, juntamente com seu modelo de sacrifício não-olímpico – um holocausto de porcos – realizado, como observou um comentarista grego, “com um certo traço de indiferença”.

Indiferente, entretanto, não é a atmosfera associada com as civilizações da Idade do Bronze da pré-homérica Creta minóica e das contemporâneas Ilhas Cíclades, das quais a maioria desses cultos não-helênicos parece ter-se originado. A atmosfera sugerida nas suas belas obras de arte, ao contrário, é de uma graciosa harmonia com a majestade do processo cósmico. Tampouco pode-se afirmar que, mesmo nos períodos clássicos posteriores, a antiga deusa-mãe, entre seu séquito de serpentes, leões, tanques de peixes, pombais, tartarugas, lulas, cabras e touros, era sempre uma personagem temida e abominada. Sir James G. Frazer, em O Ramo Dourado, demonstrou que seu culto, no hoje famoso bosque do Lago Nemi, perto de Roma, era de fato sombrio e agourento. Nas páginas iniciais de sua grande obra ele escreve:

Havia no bosque sagrado uma certa árvore, em torno da qual, a qualquer
hora
do dia e provavelmente até da noite, uma figura sombria podia ser vista
rondando
de guarda. Levava na mão uma espada nua e todo o tempo olhava
cautelosamente à
volta, como se esperasse ser atacada a qualquer momento por
um inimigo. Era
sacerdote e assassino e o homem a quem espreitava iria
matá-lo, mais ou mais
tarde, para ocupar seu lugar como sacerdote. Era essa
a regra do santuário. O
candidato ao ofício sacerdotal só poderia ascender a
ele matando o sacerdote e,
concluído o assassinato, ocupava o posto até
chegar sua vez de ser morto por
alguém mais forte ou mais hábil. É verdade
que esse posto, em que ele se
instalava tão precariamente, conferia o título
de rei: mas certamente nenhuma
cabeça coroada jamais esteve tão pouco segura
sobre os ombros, ou foi visitada
por piores sonhos, que a sua. Ano após ano,
no verão ou no inverno, com bom ou
mau tempo, o rei do bosque tinha que
manter sua solitária vigilância e, toda vez
arriscava um cochilo agitado,
fazia-o com perigo de vida.

De fato, uma cena sombria! E temos outras também, dos anais da Grécia e de Roma, que produzem a mesma atmosfera de pavor: a lenda da Rainha Pasífae de Creta, por exemplo, com seu amor por um touro proveniente do mar; e seu filho, o terrível Minotauro, andando para lá e para cá no labirinto construído para aprisioná-lo. Entretanto, outras cenas de rituais pré-helênicos sugerem um idílio, mais de harmonia e paz, sabedoria e poder de profetizar, para aqueles em cujos corações não existe o medo de fanstasmas. Na obra Sobre a Natureza dos Animais, o autor romano Aelian (morto em 222 d.C.) descreve um santuário à serpente na região de Epiro, que se dizia na época ser do deus Apolo. Mas na verdade era – como santuário da serpente de Zeus Meilichios – o vestígio de uma mitologia anteior egéia pré-helênica.


O povo de Epiro faz sacrifícios a Apolo e em um dia do ano celebram em sua
homenagem a festa principal. Uma festa e grande magnificência e reputação. Há um
bosque dedicado ao deus, com um muro circular, dentro do qual certamente existem
obras – brinquedos do deus, sem dúvida. Somente a sacerdotisa virgem aproxima-se
delas. Nua, ela leva alimento para as cobras. O povo de Epiro diz que essas
cobras são descendentes da Píton de Delfos. Quando a sacerdotisa aproxima-se das
cobras, se recebem mansamente a comida, diz-se isso significa que será um ano de
abundância e livre de doenças. Mas se elas a amedrontarem e não aceitam os bolos
de mel que ela oferece, é porque estão agourando o inverso.

Vejamos agora a pintura do vaso da figura 9[11], que mostra a mesma temática, exibindo a árvore mítica das maçãs douradas, desta vez na terra do pôr-do-sol das Hespérides. Uma imensa cobra provida de chifres enrosca-se numa árvore. De uma cova, na terra s eu pé, a água jorra de uma fonte de duas vertentes, enquanto as belas Hespérides – uma família de ninfas conhecidas na antiguidade como filhas sem pai da deusa cósmica Noite – estão devotadas ao seu serviço. E tudo era precisamente como as coisas teriam permanecido no Éden, se o recém-instalado patriarcado – que não apenas reivindicava primazia sobre a propriedade como também sobre a existência – não houvesse ficado ressentido ao perceber que os acontecimentos estavam se sucedendo.

Agora fica evidente que antes que os pastores nômades árias de gado vacum – procedentes do Norte – e dos pastores semitas de ovelhas e cabras – vindos do Sul – chegassem de modo violento aos veneráveis locais de culto do mundo antigo – no final da Idade do Bronze e início da Idade do Ferro – , nesse mundo prevalecia uma visão essencialmente orgânica, vegetal e não heróica da natureza e das necessidades da vida. Essa visão era completamente repulsiva àqueles “corações de leão” para quem, ao contrário do trabalho paciente da terra, era a lança de batalha com sua pilhagem a fonte tanto da riqueza quanto do prazer. Nos anteriores mitos e ritos da mãe, os aspectos claro e escuro da coisa complexa que é a vida tinham sido respeitados igual e conjuntamente.

Nos mitos posteriores patriarcais, masculinos, tudo o que é bom e nobre foi atribuído aos novos senhores deuses heróicos, deixando para os poderes nativos naturais apenas o caráter da obscuridade. A isso foi acrescentado também um julgamento moral negativo. Como um grande volume de evidências demonstra, as ordens social e mítica dos dois estilos de vida contrastantes opunham-se. Onde a deusa tinha sido venerada como a concessora da vida, bem como consumidora dos mortos, as mulheres – como suas representantes – tinham ocupado uma posição superior, tanto na sociedade quanto no culto. Uma tal ordem de costumes sociais e religiosos de orientação feminina é chamada, de uma maneira ampla e geral, a ordem do Matriarcado. E oposta a essa está a ordem do Patriarcado, marcada pelo ardor da eloqüência justa e pela fúria do fogo e da espada.

Por isso, nas primeiras literaturas da Idade do Ferro, tanto da Grécia ária quanto de Roma e do vizinho Levante semita, abundam diferentes tipos de relato sobre a conquista, por um herói resplandecente, de um tenebroso e desacreditado monstro da ordem anterior de divindades, de cujas entranhas algum tesouro era obtido: uma boa terra, uma virgem, uma dádiva de ouro ou simplesmente a libertação da tirania do monstro impugnado.

O principal exemplo bíblico foi a vitória de Jeová sobre o monstro-serpente do oceano cósmico, Leviatã, da qual ele gabou-se a Jó:


“Poderás pescar o Leviatã com anzol e atar-lhe a língua com uma corda?
Serás capaz de passar-lhe um junco pelas narinas, ou perfurar-lhe as mandíbulas
com um gancho? Virá a ri com muitas súplicas, ou dirigir-te-á palavras ternas?
Fará um contrato contigo, para que faças dele o teu criado perpétuo? Brincarás
com ele como um pássaro, ou amarrá-lo-ás para tuas filhas? Negociá-lo-ão os
pescadores, ou dividi-lo-ão entre si os negociantes? Poderás crivar-lhe a pele
com dardos, ou a cabeça com arpão de pesca? Põe-lhe em cima a mão: pena na luta,
não o farás de novo”.

O exemplo correspondente entre os gregos foi a vitória de Zeus sobre Tifão, o filho mais novo de Gaia, a deusa Terra. Essa façanha assegurou o reinado dos deuses patriarcais do Monte Olimpo sobre os anteriores descendentes titãs da grande deusa-mãe. O corpo do titã, metade homem metade cobra, conta-se, era enorme. Era tão que sua cabeça freqüentemente batia nas estrelas e seus braços conseguiam estender-se do nascer ao pôr-do-sol (figura 10[12]). De seus ombros, de acordo com a narrativa de Hesíodo, saía uma centena de cabeças de serpente, todas com línguas de fogo, enquanto labaredas dardejavam de seus muitos olhos. Dentro do seu corpo podiam-se ouvir vozes emitindo sons que os deuses conseguiam entender, além de bramidos de touros, rugidos de leão, latidos de cães, ou silvos tão fortes que as montanhas ecoavam. E aquela coisa terrível teria se tornado o senhor da criação se Zeus não o tivesse enfrentado em combate.

O Olimpo estremeceu sob os pés do pai dos deuses quando ele se moveu. A terra gemeu. Do fulgor do seu raio, bem como dos olhos e respiração de seu antagonista, o fogo irrompeu sobre o mar escuro. O oceano ferveu. Ondas elevaram-se e bateram em todos os promontórios da costa. O solo tremeu. Hades, senhor dos mortos, agitou-se. Até mesmo Zeus, por um tempo, ficou paralisado. Mas quando recuperou a força, empunhando a arma terrível, o grande herói saltou de seu monte e, arremessando o raio, disparou fogo em todas aquelas cabeças que emitiam rugidos, latidos e silvos. Chamas saíram dele, percorrendo as florestas das montanhas íngremes, rugindo, tão quentes que grande parte da terra dissolveu-se como ferro incandescente na fornalha subterrânea do artífice coxo dos deuses, Hefesto. E então o poderoso rei dos deuses, Zeus, prodigioso em sua explosão de ira, levou a vítima flamejante para a boca aberta do Tártaro. Por isso, até hoje saem dali, daquela forma titânica, todos os ventos que sopram através dos mares causando aflições aos mortais, dispersando navios, afogando marinheiros, destruindo o trabalho dos habitantes da região com tempestades e poeira.

A semelhança entre essa vitória e a de Indra – rei do panteão védico – sobre a serpente cósmica Vritra é indubitável. Os dois mitos são variáveis de um mesmo arquétipo. Alem do mais, em cada um o papel do anti-deus foi atribuído a uma figura de uma mitologia anterior – na Grécia, a dos pelasgos e na Índia, a dos dravidianos – , a demônios que outrora tinham simbolizado a força da própria ordem cósmica, os mistério oculto do tempo, que devora as façanhas heróicas como se fossem poeira: tinham simbolizado a força da serpente imortal, mudando de vida como de pele, que, impulsionada para diante volta de modo incessante ao seu ciclo do eterno retorno. Deve continuar dessa maneira para sempre, em ciclos por toda a eternidade, chegando a absolutamente nenhum lugar.

Contra esse símbolo do poder imortal encontramos o princípio guerreiro da grande façanha do indivíduo que arremessou seu raio, fazendo ceder – por um tempo – a antiga ordem de crença, bem como de civilização. O império minóico de Creta desintegrou-se, exatamente como na Índia a civilização das cidades gêmeas dravídicas, Harapa e Mohenjo-Daro. Entretanto, na Índia, a velha mitologia do poder da serpente em pouco tempo recuperou seu vigor, até que, por volta da metade do primeiro milênio a.C., já havia absorvido o espírito e o panteão inteiro dos deuses védicos – Indra, Mitra Vayu e os demais – , transformando-os em meros agentes dos processos de seu próprio círculo de eterno retorno. No Ocidente, por outro lado, o princípio de indeterminação representado pelo livre arbítrio do herói historicamente eficaz não apenas conquistou, mas também firmou raízes, mantendo sua influência até o presente. Além do mais, a vitória do princípio do livre-arbítrio, juntamente com seu corolário moral de responsabilidade individual, estabelece a primeira característica distintiva da mitologia especificamente ocidental. Refiro-me não apenas aos mitos da Europa ária (gregos, romanos, celtas e germânicos), mas também aos mitos dos povos semitas quanto árias do Levante (semitas, acádios, babilônicos, fenícios, hebreus e árabes; persas árias, armênios, frígios, trácio-ilírios e eslavos). Quer pensemos nas vitórias de Zeus e Apolo, Teseu e Perseu, Jasão e os demais, sobre os dragões da Idade de Ouro, ou nos voltemos para a de Jeová sobre Leviatã, a lição é a mesma. A de uma força autopropulsora maior que a do destino de qualquer serpente terrena. Todas são (para usarmos uma frase da Sra. Jane Harrison), “acima de tudo, um protesto contra a adoração da Terra e os daimones da fertilidade da Terra”.

“O culto dos poderes da fertilidade, incluindo toda a vida vegetal e animal,
é suficientemente amplo para ser forte e saudável”, ela acrescenta, “mas como a
atenção do homem centra-se cada vez mais em sua própria humanidade, uma tal
adoração é obviamente uma fonte de perigo e doença”.

Bem, e assim é! Entretanto, não se pode deixar de sentir que há algo forçado, até mesmo não convincente, em todas as atitudes morais masculinas dos resplandecentes heróis justos, seja da doutrina bíblica ou da Greco-romana; pois, por vingança ou compensação, a Vida Suprema – e com ela a profundidade e o apelo espirituais dos mitos nos quais eles figuram – continua latente junto às presenças obscuras da amaldiçoada e no entanto grávida terra. Essas presenças e seus poderes correspondentes, embora derrotados e subjugados, nunca foram totalmente absorvidos. Subsiste neles um resíduo de mistério. E esse mistério, em toda a história do Ocidente, esteve sempre subjacente, emanando dos símbolos arcaicos dos posteriores sistemas “superiores”, como se dissesse silenciosamente: “Mas você não ouve o som mais profundo?”

Na lenda da Medusa, por exemplo, apesar de ser narrada do ponto de vista do sistema patriarcal olímpico clássico, a mensagem ancestral pode ser ouvida. Os cabelos da Medusa, Rainha das Górgonas, eram serpentes silvantes. Seu olhar transformava os homens em pedras. Perseu matou-a com astúcia e fugiu com sua cabeça no embornal; mais tarde Atena fixou-a em seu escudo. Mas do pescoço cortado da Górgona surgiu o cavalo alado Pégaso, que fora gerado pelo deus Posídon, e logo atrelado à carruagem de Zeus. E com a assistência de Atena, Asclépio, o deus da crua, recolheu o sangue da Medusa, tanto das veias do seu lado esquerdo quanto do direito. Com o primeiro ele mata, mas com o segundo cura e traz de volta à vida.

Assim como os dois poderes coexistiam em Medusa, o mesmo ocorre com a deusa negra Kali, da Índia. Com a mão direita concede benefícios, com a esquerda empunha uma espada. Kali dá à luz todos os seres do Universo, embora sua língua longa e vermelha espiche-se para lamber seu sangue. Ela usa um colar de caveiras. Seu saiote é feito de braços e pernas cortados. Ela é o Tempo Negro, tanto a vida quanto a morte de todos os seres, o útero e túmulo do mundo. A primeira e única realidade suprema da natureza, de quem os próprios deuses não passam de agentes funcionais.

Vejamos agora a curiosa lenda do sábio cego Tirésias, a quem até mesmo Zeus e Hera procuraram uma vez em busca de um veredicto. “Insisto”, tinha dito jocosamente o rei dos deuses à sua esposa, “você mulheres têm mais prazer em fazer amor do que os homens”. Ela negou-o. e assim eles convocaram Tirésias; pois, em conseqüência de uma estranha aventura, ele tinha vivenciado os dois lados do amor. “Um dia, enquanto caminhava no bosque”, conforme Ovídio narra a lenda, Tirésias golpeou com uma vara duas imensas serpentes que se acasalavam e (milagre!) foi transformado de homem em mulher. Viveu assim sete anos. No oitavo, viu as duas juntas novamente e disse: “Se golpeando-as obtém-se tal virtude que o responsável pela façanha é transformado em oposto, então vou golpeá-las novamente”. Assim fez e sua forma anterior retornou, de maneira que recuperou o gênero de seu nascimento.

Quando chamado a resolver a disputa entre o pai dos deuses e sua esposa, Tirésias sabia a resposta, portanto. E tomou partido de Zeus. A deusa irritada, deu-lhe um golpe que o deixou cego. O deus, em compensação, concedeu-lhe o dom da profecia.

Nessa lenda, as serpente acasaladas, como as do caduceu, são o símbolo da força geradora do mundo que age através de todos os pare de opostos, masculino e feminino, nascimento e morte. Em seu mistério Tirésias tropeçou, enquanto vagava pelo bosque dos segredos da imortal deusa Terra. Seu golpe impulsivo colocou-o entre as duas, como o pilar central da figura 1 (axis mundi). Foi então arremessado para o outro lado por sete anos – uma semana de anos, por uma pequena vida – sobre o qual não tinha nenhum conhecimento prévio. Lá, intencionalmente, voltou a golpear o símbolo vivo do dois, que em essência é um. Retornando à sua própria forma, tinha o conhecimento de ambos os lados: em sabedoria era superior tanto a Zeus, que era meramente macho, quanto à deusa, que era meramente fêmea.

O ponto de vista patriarcal é diferente da visão arcaica anterior, por separar todos os pares de oposto – macho e fêmea, vida e morte, verdadeiro e falso, bem e mal – como se fossem absolutos em si mesmos e não apenas aspectos da entidade maior da Vida. Podemos comparar essa perspectiva com a visão mítica solar, como oposta à lunar. A escuridão foge do sol como seu oposto, mas na luz a luz e a escuridão interagem numa mesma esfera. A de Tirésias foi resultante de uma comunicação da sabedoria lunar. Era uma cegueira para o mundo da luz do sol, visão correlata do olho interior, que penetra nas trevas da existência. Portanto, Tirésias surge como um visitante originário do estrato subliminal mais profundo da herança grega, para mover-se como uma presença misteriosa entre as personagens da esfera posterior dos deuses e mitos do Olimpo, que eclipsaram aquele estrato ancestral – sem conseguir suprimi-lo.

Já não citamos a serpente Zeus Meilichios? E não foi sob essa forma que eus teve relações sexuais com sua filha Perséfone, quando a deusa-terra Deméter, que a tinha parido, deixou-a numa caverna em Creta, protegida pelas duas serpente que normalmente puxavam sua carruagem?

O leitor lembra-se, talvez, da lenda órfica citada no volume Mitologia Primitiva. Ela narra que a deusa virgem estava lá sentada (na caverna), tecendo calmamente um manto de lá no qual haveria uma representação do Universo; sua mãe tramava para que Zeus descobrisse sua presença. Ele se aproximou na forma de uma cobra imensa. E a virgem concebeu o eterno deus do pão e do vinho, Dioniso, que foi parido e nutrido naquela caverna, dilacerado até à morte, ainda bebê, e ressuscitado.

Comparativamente na lenda cristã, originária do mesmo pano de fundo arcaico, Deus Espírito Santo, na forma de uma pomba, aproximou-se da Virgem Maria. E ela, através da orelha, concebeu Deus Filho, que nasceu numa caverna, foi morto, ressuscitou e está presente hipostaticamente, no pão e no vinho da Missa. Pois a pomba, não menos que a serpente, era um atributo e parceiro da Grande Deusa do Oriente pré-homérico, pré-mosaico. Na figura 11[13] ela é vista como Afrodite, cercada pelos devotos Eros, segurando uma pomba na mão esquerda. Assim, no panorama mundial da mitologia, o Deus Pai da Trindade Cristã, o pai-criador de Maria, Deus Espírito Santo, seu esposo, e Deus Filho, sua criança morta e ressuscitada, reproduzem numa época posterior o mistério órfico de Zeus, na forma de uma serpente que gera, em sua própria filha Perséfone, o filho encarnado Dioniso.

A vitória das divindades patriarcais sobre as divindades matriarcais anteriores não foi tão decisiva na esfera greco-romana, quanto nos mitos do Antigo Testamento. Como Jane Harrison demonstrou, os deuses anteriores sobreviveram, não apenas perifericamente sob formas tão aberrantes como a de Zeus Meilichios, mas também nos ritos da esfera popular e nos cultos das mulheres. Me particular nos mistérios de Deméter e nos órficos, de onde numerosos elementos das heranças passaram para o cristianismo – de maneira mais evidente nos mitos e ritos da Virgem e da Missa. Na Grécia os deuses patriarcais não exterminaram, mas desposaram, as deusas locais. Elas conseguiram por fim reconquistar influência, enquanto na mitologia bíblica todas as deusas foram exterminadas – ou, pelo menos, foram tidas como tal.

Entretanto, conforme podemos ler em cada capítulo dos livros de Samuel e Reis, os antigos ritos da fertilidade continuaram a ser realizados por todo Israel, tanto pelo povo quanto pela maioria de seus governantes. E no próprio texto do Pentateuco permaneceram os sinais, contidos silenciosamente em símbolos, da sabedoria da antiga mãe-terra e seu esposo serpente:

Jeová Deus disse à mulher: “Que fizeste?” E a mulher respondeu: “A serpente
me seduziu e eu comi”. Então Jeová Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso
és maldita entre todos os animais domésticos e todas as feras selvagens.
Caminharás sobre teu ventre e comerás poeira todos os dias de tua vida. Porei
hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te
esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”.
Assim Jeová amaldiçoou a
mulher a dar á luz com dores e se submeter ao esposo – o que selou o patriarcado
da nova era. E ele amaldiçoou também o homem que fora até a árvore e comera do
fruto que ela lhe havia oferecido. “Com suor de teu rosto comerás teu pão até
que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás.”
(Gênese 3:13-19)

Mas a terra, o pó, de onde o casal tinha vindo, era, sem dúvida, a deusa Terra, privada de suas características antropomórficas, embora retendo em seu aspecto elementar a função de proporcionar a substância na qual o novo esposo, Jeová, tinha soprado o alento de vida de seus filhos. E eles deveriam retornar a ela, não ao pai, na morte. Dela eles haviam sido retirados e a ela retornariam.

Como os titãs da fé anterior, Adão e Eva eram dessa maneira filhos da deusa mãe Terra. Tinham sido apenas um no início, como Adão. Depois, tinham sido divididos em dois, como Adão e Eva. E o homem, repreendido, respondeu ao desafio de Jeová de uma maneira inteiramente apropriada ao seu caráter titânico. “O homem”, lemos, “chamou a mulher de Eva, por ser a mãe de todos os viventes”. Como a mãe de toda vida, a própria Eva, então, tem que ser reconhecida como o aspecto antropomórfico perdido da deusa-mãe. E Adão, portanto, deve ter sido seu filho, além de seu esposo. A lenda da costela é claramente uma inversão patriarcal (que dá precedência ao macho) do mito anterior do herói nascido da deusa Terra, que retorna a ela para renascer. Sugerimos ver novamente as figuras 6 e 7.

Outrossim, como nas representações de Ningizzida da Idade do Bronze, com seus guardiões da serpente, temos evidências claras e apropriadas, em todos o texto bíblico, de que o Senhor Jeová era um aspecto do poder da serpente. Portanto, era o próprio esposo serpente da deusa do caduceu, Mãe Terra. Vamos recordar, primeiramente, a vara mágica com a qual Moisés amedrontava o faraó. Jeová perguntou-lhe: “Que é isso que tens na mão?” E Moisés respondeu: “Uma vara”. Jeová ordenou: “Lança-a na terra”. Então ele a jogou no chão e a vara transformou-se em serpente. Moisés fugiu. Mas Jeová disse a Moisés: “Estende a mão e pega-a pela cauda”. Então ele estendeu a mão e a pegou. A serpente transformou-se novamente numa vara. A mesma vara mais tarde produziu água das rochas no deserto. E quando as pessoas murmuravam contra Jeová, lemos:

Então Jeová enviou contra o povo serpentes abrasadoras, cujas mordeduras fez perecer muita gente em Israel. […] Moisés intercedeu pelo povo e Jeová respondeu-lhe: “Faze uma serpente abrasadora e coloca-a em uma haste. Todo aquele que for mordido e a contemplar viverá”. Moisés, portanto, fez uma serpente de bronze e a colocou em uma haste; se alguém era mordido por uma serpente contemplava a serpente de bronze e vivia.

Somos informados no Livro Reis II que as pessoas continuaram a adorar esse ídolo serpente de bronze em Jerusalém, até o tempo do Rei Ezequias (719-691 a.C.) que, como nos dizem, “reduziu a pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, pois os filhos de Israel até então ofereciam-lhe incenso; chamavam-na Noestã”.

É para ficarmos perplexos, então, ao descobrirmos que o nome da tribo religiosa de Levi, os principais protagonistas de Jeová, provinha da mesma raiz verbal da palavra Leviatã? Ou que quando, por fim, apareceram imagens do deus não representável, sua forma era a de um deus com pernas-serpentes?[14]

[1]CAMPBELL, Joseph. “As Máscaras de Deus – Mitologia Ocidental”. São Paulo: Editora Palas Athena, 2004. pp. 19: “O Senhor Serpente”.
[2] Ibidem, pp. 20: “A Árvore do Mundo”.
[3] Ibidem, pp. 20: “O Senhor Serpente Entronado”
[4] Ibidem, pp. 21: “Axis Mundi”.
[5] Ibidem, pp. 21: “O Jardim da Imortalidade”.
[6] Ibidem, pp. 22: “A Deusa da Árvore”.
[7] Ibidem, pp. 23: “Deméter”.
[8] Não é o mesmo que Plutão ou Plúton, deus do mundo ínfero, embora freqüentemente confundido com ele por causa da semelhança de nomes.
[9] Gênese 3:22-24. As citações de Campbell são inteiramente da Revised Standard Version of the Bible.
[10] Ibidem, pp. 26: “Zeus Meilichios”.
[11] Ibidem, pp. 28: “A Árvore das Hespérides”
[12] Ibidem, pp. 29: “Zeus contra Tifão”.
[13] Ibidem, pp. 33: “Afrodite com numerosos Eros”
[14] Ver figuras 25 e 26, pp 228 e 229.

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