Dualidade Sol-Lua

Sol e Lua

A Lua é sempre yin em relação ao Sol yang, pois este irradia a sua luz diretamente, enquanto a Lua reflete a luz do Sol. Portanto, é um princípio ativo, e outro, passivo. Isto tem uma implicação simbólica muito ampla: considerando a luz como conhecimento, o Sol representa o conhecimento intuitivo, imediato; a Lua, o conhecimento por reflexo, racional, especulativo. Conseqüentemente, o Sol e a Lua correspondem respectivamente ao espírito e à alma (spiritus e anima), assim como a suas sedes: o coração e o cérebro. São a essência e a substância, a forma e a matéria: seu pai é o Sol, sua mãe, a Lua, lê-se na Tábua da Esmeralda hermética. Segundo Shabestari, o Sol corresponde ao Pofeta e a Luz ao wali (ao Imã), pois o segundo recebe a luz do primeiro.
A dualidade do ativo-passivo, macho-fêmea, que é também a do fogo e da água, não é uma regra absoluta. No Japão, e também entre os montanheses do Vietnã do Sul, é o Sol que é feminino, a Lua, masculina (é interessante notar que na língua alemã também). É que o aspecto feminino é considerado ativo, pois é fecundo; pra os radhés, é a Deusa Sol que fecunda, incuba e dá a vida. É também por essa razão que, embora os olhos dos heróis primordiais (Vaishvanara, Shiva, P’na-ku, Lao-kiun) sejam o Sol e a Lua (olho direito = Sol; olho esquerdo = Lua), as correspondências, no caso de Izanagi, são invertidas. A correspondência com os olhos lembra outra correspondência: o olho esquerdo corresponde ao futuro, o olho direito, ao passado; assim, o Sol fica com a intelecção, a Luz com a memória.

Esses olhos, solar e lunar, correspondem às duas nadi laterais da Ioga: ida lunar e pingala solar. Além disso, a viagem do ser libertado, a partir do resultado da nadi central, se desenvolve, seja em direção à esfera do Sol (a via dos deuses, devayana), seja em direção à esfera da Lua (a via dos Ancestrais, pitri-yana): saída do cosmo no primeiro caso, renovação cíclica, no segundo. No tantrismo, ida e pingala correspondem, enquanto Lua e Sol, a Xákti e a Shiva, mas a natureza lunar de Xiva às vezes inverte as perspectivas. A ioga é a união do Sol com a Lua (ha e tha, de onde Hatha-ioga), representados pelos sopros prana e apana, ou ainda pelo sopro e pelo sêmen, que são o fogo e a água. A mesma dualidade se exprime no simbolismo alquímico-tântrico dos chineses, pelos tríganos li e k’na, que, inclusive, I-Ching efetivamente faz corresponder ao Sol e à Lua.
A dualidade Sol-Lua é ainda a de Vixenu e Shiva, das tendências sattva e tamas. É possível encontrá-las nas dinastias solares e lunares da Índia, do Kampuchea (Camboja), do Champa. A união do Sol e da Lua é Harihara, parte Vixenu, parte Shiva, símbolo favorito da arte pré-angkoriana. E também é, em chinês, luz (ming), cujo caráter é a síntese daquele que designam o Sol e a Lua.
Nas tradições meso-americanas, o simbolismo solar se opõe ao simbolismo lunar em outro ponto: o pôr-do-sol não é visto como uma morte (ao contrário do caso da Lua durante os três dias de obscuridade), mas como uma descida do astro às regiões inferiores, ao reino dos mortos. Ao contrário da Lua, o Sol tem o privilégio de atravessar o inferno sem se submeter à morte. Daí vem a qualidade propriamente solar da águia nos atributos xamânicos.
A oposição Sol-Lua abrange geralmente a dualidade macho-fêmea. Assim, segundo uma antiga tradição, em Teotihuacan, homens eram sacrificados ao Sol e mulheres à Lua.
A dualidade simbólica fundamental subentendida pela díade Sol-Lua é resumida de modo surpreendente pelos atributos das metades exogâmicas dos índios omahas, materializadas, nos seus acampamentos, pela separação das tendas em dois semi-círculos contrapostos: a primeira metade rege atividades sagradas, associadas ao Sol, ao dia, ao norte, ao alto, ao princípio masculino, ao lado direito; a segunda metade, às funções sociológicas e políticas, associadas à Lua, à noite, ao baixo, ao princípio feminino, ao lado esquerdo.
Esse post foi publicado em Alma, Amor, Astrologia, Deusa, fecundidade, Feminino, fertilidade, filosofia, Homem, Lua, Mitologia, Mitologia Hindu, Mulher, símbolos, Simbolismo, Sol, Vida. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Dualidade Sol-Lua

  1. Experiencia disse:

    Nossa adorei o seu post.
    Tem muita informação interessante e muita história e sabedoria contida nele, vou ter que ler mais de uma vez pra poder memorizar tanta coisa!

    Mas está ótimo!

    Se desejar acompanhe meu blog e do meu amigo há bastante experiências.

    Ass: CRZ…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s