Simbologia da água (II) na arte cristã

Simbologia da água (II) na arte cristã

A água alude, na tradição judaica cristã, è origem da criação. É em todo caso hierofania, mas pode ser tanto criativa como destrutiva, fonte da vida como fonte da morte. As nascentes no deserto são como as fontes na montanha uma razão de alegria aos nômades.
O relato do dilúvio, em Gênesis capítulo 6, representando, por exemplo, no portal de S. Zenão, em Verona (Itália), século XII, em mosaicos dos séculos XII e XIII na capela Palatina (Palermo), São Marcos (Veneza); em afrescos do século XII em St. Savin/Poitou, janela do século XIII, Sainte Chapelle (Paris); em tapetes de Bruxelas do século XVI; de Hans Baldung Grien, século XVI, residência episcopal de Bamberga – retoma manifestamente motivos mesopotâmicos e constituirá permanente símbolo de aniquilação e salvamento.
O milagre da fonte de Moisés (Números 20:11), representado com tanta freqüência nas catacumbas com significado sacramental (Exemplos: afrescos das catacumbas do século IV em São Calisto, em Roma; pórtico de madeira de S. Sabina, Roma; relevo do século XII em Ripoll/Catalunha; janelas tipológicas do século XIII em Burges, Le Mans, Tours, entre outros).
Todo o Velho Testamento venera o sinal de benção da água, ainda que constate sua força destrutiva no dilúvio e na passagem pelo mar Vermelho. O dilúvio alude à mortalidade inevitável da humanidade pecadora, da qual somente a arca, prefiguração da Igreja ou da necessidade de Deus, salva; a passagem pelo mar Vermelho designa (Isaías 51:10) o caminho de peregrino pelas tribulações do mundo rumo à terra prometida.
Existe, ainda, no judaísmo tardio a idéia da água da sabedoria: Jó 28,25; Provérbios 3,20; 8,22-24 e 28; 20,5. No culto israelita, assim como na maioria das religiões pagãs, o uso da água designa um processo de purificação sobre o qual existem preceitos bastante precisos (Nm. 19). A esse uso aludem inúmeras passagens (por exemplo: Ezequiel 36,25). No Novo Testamento alude-se, muitas vezes, a esses ritos escrupulosos de purificação. As sete talhas com vinho nas bodas de Canaã eram destinadas á purificação. Jesus dá-se a conhecer à samaritana junto ao poço como o Senhor da água da vida (João 4,10).
Não existem dúvidas acerca da função soteriológica, e não apenas purificadora da água. Não é, por isso, de se admirar que o culto cristão tenha retomado a água. No batismo, a água opera a purificação dos pecados no ato simbólico de morrer e ressuscitar (Romanos 6,3-11). A batismal conduz a novo nascimento (João 3,3-7).
Também nos banhos, nas aspersões e loções, designa-se a purificação nesse sentido profundo. Não apenas exemplo da humildade fraternal, mas também símbolo do batismo dos apóstolos para prepará-los para a ceia eucarística, e também símbolo do sacramento da penitência, que precede logicamente à comunhão, é o lava-pés de Jesus aos discípulos (João 13,1), prefigurado no Antigo Testamento pelo lava-pés de Abraão aos três Anjos e o banho dos sacerdotes judeus no mar de bronze do templo de Salomão. Em sarcófago do século IV em Arles, o lava-pés é combinado com o lava-mãos de Pilatos (Mateus 27,24). No século XVIII (Giovanni Giuliani, plástica em madeira, 1705, claustro de Heiligenkreuz/Áustria) ela faz o jogo com o lava-pés de Cristo por Maria Madalena (Exs.: além dos evangeliários do século VI-XI: mosaicos do século XI, em Hosios Lukas/ Phokis e Dafni/Ática; afrescos do século XI em São Ângelo in Formis e St. Ensice, Selles sur Cher; mosaico do século XII, S. Marcos, Veneza; capitéis do século XII, St. Julien de Jonzy e St. Gilles-du-Gard, França; entre outros.
O lava-mãos de Pilatos durante o processo de Jesus (Mateus 27,24) não segue costumes romanos, e sim judaicos (Deuteronômio 21,6-8) e por isso é questionável no caso de um romano. Em todo caso, Pilatos declina toda responsabilidade e pelas conseqüências com esse gesto solene de protesto. Exemplos: sarcófago de Junius Bassus, século IV, Museu Lateranense de Roma; mosaico do século VI, S. Apolinário Novo, Ravena; portal de madeira do século VI, S. Sabina, Roma; afresco do século XIII em S. Baudílio, Berlanga em Soria/Castilha; grade do século XIII, domo de Naumburgo; coluna de cibório do século XIII, São Marcos, em Veneza; entre outros.
Ainda que mais tarde (a partir do século VI) se benzesse a água batismal expressamente e se lhe atribuísse força sacramental, ela deve ser distinguida da água benta. A primeira alusão à última encontra-se nos Atos apócrifos de Pedro (cerca de 200), e depois nos Atos de Tomé (cerca de 232). Consta que no Oriente a partir do século III se usava uma água benta para alívio dos doentes e para afastar demônios. No Oriente os testemunhos são mais tardios. Recipientes de água que se encontravam às portas de igrejas mais antigas e que se pensou ser pia de água benta, podem também ter contido água comum para fins de purificação. Mas a partir do século VI difunde-se o uso da água benta. Com ela se aspergiam as casas, os alimentos e o cadáver. O uso corrente hoje bastante mais amplo se formou ainda mais tarde. O significa do sacral da água pode-se verificar em adornos e ornamentos em lugares de peregrinações.

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3 respostas para Simbologia da água (II) na arte cristã

  1. Paulo disse:

    água…saude…e amor…:)

    são bens issenciais…:)

    agua para o cristão lava quase tudo…

    até a alma…

    um sorriso pa ti :)

  2. isto está muito giro.
    Assinado:Sara Filipa Faria Fernandes

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