Simbolismo da Água

As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência. Esses três temas se encontram nas mais antigas tradições e formam as mais variadas combinações imaginárias – e as mais coerentes também.
As águas, massa indiferenciada, representando a infinidade dos possíveis, contêm todo o virtual, todo o informal, o germe dos germes, todas as promessas de desenvolvimento, mas também todas as ameaças de reabsorção. Mergulhar nas águas, para delas sair sem se dissolver totalmente, salvo por uma morte simbólica, é retornar às origens, carregar-se, de novo num imenso reservatório de energia e nele beber uma força nova: fase passageira de regressão e desintegração, condicionando uma fase progressiva de reintegração e regenerescência.

O Rig Veda exalta as Águas que trazem vida, força e pureza, tanto no plano espiritual quanto no corporal:

Vós, as Águas que
reconfortais,
trazeis-nos a
força, a
grandeza, a alegria, a
visão! …
Soberana das
maravilhas,
regentes dos povos, as
Águas! …
Vós,
as Águas, dai sua plenitude ao
remédio, a
fim
de que seja uma couraça para o meu
corpo, e
que
assim eu veja por muito tempo o
sol! …
Vós, as
Águas, levai daqui esta
coisa,
esse
pecado, qualquer que ele seja, que
cometi,
esse
malfeito que fiz, a quem quer que
seja, essa
jura mentirosa que jurei”

Na Ásia, a água é a forma substancial da manifestação, a origem da vida e o elemento da regeneração corporal e espiritual, o símbolo da fertilidade, da pureza, da sabedoria, da graça e da virtude. Fluida, sua tendência é a dissolução; mas, homogênea também, ela é igualmente o símbolo da coesão, da coagulação. Como tal, poderia corresponder à “sattva“; mas, como escorre para baixo, para o abismo, sua tendência é tamas; como se estende na horizontal, sua tendência é ainda rajas.

A água é a matéria-prima, a Prakriti: “Tudo era água”, dizem os textos hindus; “as vastas águas não tinham margens”, diz um texto taoísta. Bramanda, o Ovo do mundo, é chocado à superfície das Águas. Da mesma forma, o “Sopro” ou “Espírito de Deus”, em Gênesis, “pairava sobre as águas”. A água é Wu-ki, dizem os chineses, o Sem-Crista, o caos, a indistinção primeira. As Águas, representando a totalidade das possibilidades da manifestação, se dividem em Águas superiores, que correspondem às possibilidades informais (indeterminadas); e Águas inferiores, que correspondem às possibilidades formais (determinadas). Dualidade que o Livro de Enoque traduzirá em termos de oposição sexual, e que a iconografia representa freqüentemente pela dupla espiral. As águas inferiores estão, ao que diz, fechadas num templo de Lhassa, dedicado ao rei dos nagas. As possibilidades informais são representadas na Índia pelas Apsaras (de Ap, água). A noção de águas primordiais, de oceano das origens, é quase universal. Pode ser encontrada até na Polinésia, e a maior parte dos povos austro-asiáticos situa na água o poder cósmico. A ela se junta muitas vezes o mito animal mergulhador, como o javali hindu, que traz um pouco de terra à superfície, embrião que aflora à manifestação formal.

Origem e veículo de toda vida: a seiva é água e, em certas alegorias tântricas, a água representa prana, o sopro vital. No plano corporal, e por ser também um dom do céu, ela é um símbolo universal de fertilidade e fecundidade. A “água do céu faz o arrozal”, dizem os montanheses do sul do Vietnã, sensíveis, também, cumpre dizê-lo, à função regeneradora da água, que consideram medicamento e poção de imortalidade.

Da mesma forma, a água é o instrumento da purificação ritual. Do Islã ao Japão, passando pelos ritos dos antigos fu-chuel taoístas (senhores da água benta), sem esquecer a aspersão dos cristãos, a ablução tem papel essencial. Na Índia e no Sudeste Asiático, a ablução das estátuas santas – e dos fiéis – (sobretudo no Ano-Bom) é, ao mesmo tempo, purificação e regeneração. A “natureza da água leva-a à pureza”, escreve Wan-tse. Ela é, ensina Lao-tse, o emblema da “suprema Virtude” (Tao, cap. 8). É, ainda, o símbolo da sabedoria taoísta, porque “não tem contestações”. É livre e desimpedida, corre segundo o declive do terreno. É a medida, pois que o vinho forte demais deve ser misturado com água, mesmo em se tratando do vinho do conhecimento.

A água, oposta ao fogo, é yin. Corresponde ao norte, ao frio, ao solstício do inverno, aos rins, à cor negra, ao trigrama k’an, que é o abissal. Mas, de outro modo, a água está ligada ao raio, que é o fogo. Ora, se a “redução à Água” dos alquimistas chineses pode ser muito bem considerada como uma volta ao começo, ao estado embrionário, diz-se também que essa água é fogo, e que as abluções herméticas devem ser entendidas como purificações pelo fogo. Na alquimia interna dos chineses, o banho e a lavagem poderiam bem ser operações de natureza ígnea. O mercúrio alquímico, que é a água, é às vezes qualificado como “água ígnea”.

Observa-se, ainda, que a água ritual das iniciações tibetanas é o símbolo dos votos, dos compromissos assumidos pelo postulante.

Para voltar, enfim, ao simples encanto das aparências, cito a bela fórmula de Victor Segalen:

“Meu amante tem as virtudes da água: um sorriso claro, gestos fluidos, uma voz
pura que canta gota a gota (Stéles)”

É sob forma simbólica que se exprime ainda uma prece védica às Águas, prece que cumpre entender como relativa a todos os níveis de existência, física e mental, que as Águas são capazes de vivificar:

“Ó ricas
Águas, pois
que reinais sobre a
opulência, e
alimentais a boa vontade e a
imortalidade,
e sois as soberanas da
riqueza que se
faz acompanhar de uma boa
prosperidade,
dignai-vos, Sarasvati, dotar de um vigor
juvenil aquele
que
canta.”
(Asvalayana Strantasutra, 4, 13)

Nas tradições judaica e cristã, a água simboliza, em primeiro lugar, a origem da criação. O Mem (M) hebraico simboliza a água sensível: ela é mãe e matriz (útero). Fonte de todas as coisas, manifesta o transcendente e deve ser, em conseqüência, considerada como uma hierofania.
Todavia, a água, como, aliás, todos os símbolos, pode ser encarnada em dois planos rigorosamente opostos, embora de nenhum modo irredutíveis, e essa ambivalência se situa em todos os níveis. A água é fonte de vida e de morte, criadora e destruidora.

Na Bíblia, os poços no deserto, as fontes que se oferecem aos nômades são outros tantos lugares de alegria e encantamento. Junto das fontes e dos poços operam-se os encontros essenciais. Como lugares sagrados, os pontos de água têm papel incomparável. Perto deles, nasce o amor e os casamentos principiam. A marcha dos hebreus e a caminhada de todo homem na sua peregrinação terrena estão intimamente ligadas ao contato exterior ou interior com a água. Esta se torna, então, um centro de paz e de luz, oásis.

A Palestina é uma terra de torrentes e de fontes. Jerusalém é regada pelas águas tranqüilas de Siloé. Os rios são agentes de fertilização de origem divina, as chuvas e o orvalho trazem consigo a fecundidade e manifestam a benevolência divina. Sem água, o nômade seria imediatamente condenado à morte e crestado ao maná celeste: desalterando-o, ela o alimenta. É por isso que se reza pedindo água, pois ela é o objeto de súplica. Que Deus escute o grito do seu servo, que lhe envie os seus aguaceiros, que faça encontrar os poços e as fontes. A hospitalidade exige que se apresente água fresca ao visitante, que seus pés sejam lavados, a fim de assegurar a paz do seu repouso. Todo o Antigo Testamento celebra a magnificência da água. O Novo receberá esse legado e saberá utilizá-lo.

Jeová é comparado a uma chuva de primavera (Oséias 6:3), ao orvalho que faz crescer as flores (idem, 14:6), às águas frescas que descem das montanhas, à torrente que sacia. O justo é como a árvore plantada à beira de águas correntes (Números 24:6). A água aparece, então, como um sinal de benção. Mas convém reconhecer nela justamente a origem divina. Assim, e segundo (Jeremias 2:13), o povo de Israel, na sua infidelidade, desprezando Jeová, esquecendo suas promessas e deixando de considerá-lo como a fonte de água viva, quis cavar suas próprias cisternas. Estas, porém, gretadas, não conservavam água. Jeremias, verberando a atitude do povo em face de Deus, fonte de água viva, lamenta-se dizendo: “Eles farão do seu próprio país um deserto” (18:16). As alianças estrangeiras são comparadas às águas do Nilo e do Eufrates (11:18). A alma busca seu Deus como o cervo sedento busca a presença da água viva (Salmos 42:2-3). A alma aparece, assim, como terra seca e sedenta, orientada para a água. Espera a manifestação de Deus como a terra ressecada anseia pelas chuvas que deverão encharcá-la (Deuteronômio 32:2). É esse simbolismo, que provém das bases mais antigas do mundo mediterrâneo, que fornecerá ao poeta Frederico García Lorca a trama de sua tragédia Yerma, a mulher estéril por falta de homem, como estéril (yermo) é o deserto, por falta de chuva.

É muito natural que os orientais tenham visto, assim, a água, primeiro como um sinal e um símbolo de bênção: pois não é ela que permite a vida? Quando Isaías profetiza uma era nova, diz: “brotará água no deserto… o país da sede se abrirá em fontes…” (Isaías 35:6-7). O vidente do Apocalipse não fala outra linguagem: “O Cordeiro… os conduzirá às fontes das águas da vida” (Apocalipse 7:17).

A água é dada por Jeová à terra, mas trata-se de uma outra água, mais misteriosa: provém da Sabedoria, que presidiu, no momento da criação, á formação das águas (Jó 28:25-26; Provérbios 3:20,22, 24,28-29; Eclesiástico 1:2-4). No coração do sábio reside a água; ele é semelhante a um poço e a uma fonte (Provérbios 18:4). Quanto ao homem privado de sabedoria, seu coração é comparável a um caso rachado que deixa escapar o conhecimento (Eclesiástico 21:14). Bem Sira compara a Torá (torah: lei mosaica) à Sabedoria, pois a Torá esparge uma água de Sabedoria. Os Padres da Igreja consideram o Espírito Santo como autor do dom de sabedoria, que dispensa aos corações sequiosos. As teologias da Idade Média apresentam esse tema dando-lhe sentido idêntico. Assim, para Hugues de Saint-Victor, a Sabedoria possui suas águas, a alma é lavada pelas águas da Sabedoria.

A água se torna símbolo da vida espiritual e do Espírito, oferecidos por Deus e muitas vezes recusados pelos homens.

Jesus retoma esse simbolismo no diálogo com a samaritana: “Aquele que beber da água que eu lhe darei não terá mais sede… A água que eu lhe darei se tornará nele fonte de água a jorrar em vida eterna” (João 4:4).

Símbolo, antes de tudo, de vida no Antigo Testamento, a água se tornou, no Novo, símbolo do Espírito (Apocalipse 21).

Jesus Cristo se revela Senhor da água viva à samaritana (João 4:10). Ele é a fonte: “Se alguém tiver sede, que venha mim e se desaltere” (idem, 7:37-38). Como do rochedo de Moisés, a água jorra do seu seio e, na cruz, a lança fará correr sangue e água do seu flanco aberto. É do Pai que flui a água viva, comunica-se pela humanidade do Cristo ou, pelo dom do Espírito Santo, que, conforme o texto de um hino de Pentecostes, é fons vivus (manancial de água viva), ignis caritas (fogo do amor), Altissimi donum Dei (dom do Altíssimo). São Atánasio explica o sentido dessa doutrina, dizendo: “O Pai sendo a fonte, o Filho é denominado de rio, e diz-se que nós bebemos o Espírito” (Ad Serapionem, 1:19). A água se reveste, então, de um sentido de eternidade. Aquele que bebe dessa água viva participa antecipadamente da vida eterna (João 4:13-14).

A água viva, a água da vida se apresenta como um símbolo cosmogônico. E porque ela cura, purifica e rejuvenesce, conduz ao eterno. Segundo Gregório de Nissa, os poços conservam uma água estagnada. “Mas o poço do Esposo é um poço de águas viva. Ele tem a profundeza da cisterna e a mobilidade do rio”, o que não deixa de ter relação com o texto de Lorca citado acima.
Segundo Tertuliano, o Espírito Divino escolheu a água entre os diversos elementos. É para ela que se voltam as suas preferências, pois ela se mostra, desde a origem, como matéria perfeita, fecunda e singela, totalmente transparente (De baptismo, 3). Possui, por si mesma, uma virtude purificadora e, por mais esse motivo, é considerada sagrada. Donde seu uso nas abluções rituais. Por sua virtude, a água apaga todas as infrações e toda mácula. A água do batismo, e só ela, lava os pecados, e só é conferida uma vez porque faz aceder a um outro estado: o do homem novo. Essa rejeição do homem velho, ou melhor, essa morte de um momento da história, é comparável a um dilúvio, porque este simboliza uma desaparição, uma destruição: uma era se aniquila, outra surge.

A água, possuidora de uma virtude lustral, exercerá ademais um poder soteriológico. A imersão nela é regeneradora, opera um renascimento, no sentido já mencionado, por ser ela, ao mesmo tempo, morte e vida. A água apaga a história, pois restabelece o ser num estado novo. A imersão é comparável à deposição do Cristo no santo sepulcro: ele ressuscita, depois dessa descida nas entranhas da terra. A água é símbolo de regeneração: a água batismal conduz explicitamente a um “novo nascimento” (João 3:3-7), “é iniciadora”. O Pastor de Hermas fala daqueles “que desceram à água mortos e dela subiram vivos”. É o simbolismo da água viva, da fonte de juventa. “O que tenho em mim”, diz Inácio de Teóforo (segundo Calisto), “é a água que opera e fala”. Sabe-se que a água da fonte de Catália, em Delfos, inspirava a Pítia. A água da vida é a Graça divina.

Os cultos são deliberadamente concentrados em torno das nascentes de água. Todo lugar de peregrinação comporta seu olho d’água, sua fonte. A água pode curar em razão das suas virtudes específicas. No curso dos séculos, a Igreja se levantou muitas vezes contra o culto prestado às águas. A devoção popular considerou sempre o valor sagrado e sacralizante das águas. Mas os desvios pagãos e a volta das superstições constituíam, sempre, uma ameaça. A magia espreita o sagrado para pervertê-lo na imaginação dos homens.

Se as águas precedem a criação, é evidente que elas continuam presentes para a recriação. Ao homem novo corresponde a aparição de um outro mundo.

Em certos casos, e já disse no começo, a água pode fazer obra de morte. As grandes águas anunciam, na Bíblia, as provações. O desencadeamento das águas é o símbolo das grandes calamidades.


… Certeiras, surgirão rajadas de raios,do teso arco das nuvens
para o
alvo
voarão;sua funda lançará furiosa saraivada,contra eles
lufarão as ondas
do
mar,sem piedade os rios os afogarão.Um sopro
poderoso se levantará contra
elese
os dispersará qual
furacão.
(Sabedoria, 3:21-23)

A água pode destruir e engolir, as borrascas destroem as vinhas em flor. Assim, a água também comporta um poder maléfico. Nesse caso, ela pune os pecadores, mas não atinge os justos: estes nada têm a temer das “grandes águas”. Às “águas da morte” concernem apenas os pecadores e se transformam em “águas da vida” para os justos. Como o fogo, a água pode servir de ordálio. Os objetos nela lançados se julgam, a água não profere sentença.

Símbolo da dualidade do lato e do baixo: água de chuva – água do mar. A primeira é pura; a segunda, salgada. Símbolo de vida: pura, ela é criadora e purificadora (Ezequiel 36:25); amarga, ela produz a maldição (Números 5:18). Os rios podem ser correntes benéficas ou dar abrigo a monstros. As águas agitadas significam o mal, a desordem.

Os maus são comparados ao mar agitado… (Isaías 57:20). “Salva-se, ó Deus, pois a água está subindo ao meu pescoço. Estou afundando num todo profundo, sem nada que me afirme…” (Salmos 69:1-2).

As águas calmas significam a paz e a ordem (Salmos 23:2). No folclore judaico, a separação feita por Deus, quando da criação das águas superiores e inferiores, designa a partilha das águas masculinas e femininas, simbolizando a segurança e a insegurança, o masculino e o feminino, o que se liga, como já foi dito, a um simbolismo universal.

As águas amargas do oceano designam a amargura do coração. O homem – dirá Richard de Saint-Victor – deve passar pelas águas amargas quando toma consciência da própria miséria, essa “santa amargura” se transmudará em júbilo (De statu interioris hominis, 1:10, P.I., 196, 124).

Nas tradições do Islã, a água simboliza também inúmeras realidades. O Corão designa a água-benta que vai do céu como um dos signos divinos. Os Jardins do Paraíso têm arroios de águas vivas e fontes (Corão 2:25; 88:12, etc.). O próprio homem foi criado de “uma água que se difundiu” (Corão 86:6).

Deus! Foi Ele quem criou o céu e a terra,e que fez descer do céu uma águagraças à qual faz brotarem os frutospara a vossa subsistência. (Corão, 14:32; 2:164)

As obras dos incréus são consideradas como água por aquele que tem sede; mas isso não passa de miragem. Elas se parecem às águas tenebrosas de um mar profundo, que vagas sucessivas vêm cobrir (Corão, 24:39-40). A vida presente é comparada à água que o vento dispersa (Corão, 18:45).

No seu comentário dos Fosus, de Ibn al-‘Arabi, Rumi identifica a água sobre a qual se encontra o Trono divino (Corão, 11:9) com o Sopro do Deus Misericordioso. Falando da Teofania eterna, Rumi diz que “o mar se cobriu de espuma; e a cada floco de espuma, alguma coisa tomava forma, alguma coisa tomava corpo”.

Jili simboliza o universo pelo gelo, de que a água PE a substância. A água é, aqui, prima materia.
Num sentido mais metafísico, Rumi simboliza o Fundamento divino do universo por um oceano, do qual a água é a essência divina. Ela permeia toda a criação, e as vagas são criaturas suas.
Por outro lado, a água simboliza a pureza e é empregada como instrumento de purificação. A prece ritual muçulmana – çalat – não pode ser cumprida validamente senão quando o orante se põe em estado de pureza ritual com sua abluções, cujas modalidades constituem objetos de normas minuciosas.

Enfim, a água simboliza a vida: a água da vida, que se descobre nas trevas, e que regenera. O peixe, lançado na confluência de dois mares, no Surata da Caverna (Corão, 18:61,63) ressuscita, quando mergulhado n’água. Esse simbolismo faz parte de um tema iniciático: o banho na Fonte da Imortalidade. O tema retorna constantemente na tradição mística islâmica, especialmente no Irã. Nas lendas referentes a Alexandre, este parte em busca da Fonte da Vida, acompanhado pelo seu cozinheiro Andras, o qual, um dia, lavando um peixe salgado numa fonte, vê, com espanto, que o peixe revive, e obtém, por sua vez, a imortalidade. Essa fonte fica situada no país das Trevas (simbolismo que indubitavelmente deve ser aproximado do simbolismo do inconsciente, de natureza feminina e yin).

Em todas as outras tradições do mundo, a água desempenha igualmente papel primordial, que se articula em torno dos três temas já definidos, mas com uma insistência particular nas origens. De um ponto de vista cosmogônico, a água recobre dois complexos simbólicos antitéticos, que é preciso deixar bem claro: a água descendente e celeste, a Chuva, é uma semente uraniana que vem fecundar a terra; masculina, portanto, e associada ao fogo do céu: é a água para qual García Lorca apela em Yerma. Já a água primeira, a água nascente, que brota da terra e da aurora branca é feminina: a terra está aqui associada à Lua, como um símbolo de fecundidade completa e acabada, terra grávida, de onde a água sai para que, desencadeada a fecundação, a germinação se faça.

Tanto num caso quanto no outro, símbolo da água contém o do sangue. Mas não se trata, aí também, do mesmo sangue, porque o sangue recobre, igualmente, um sentido duplo: o sangue celeste, associado ao Sol e ao fogo; o sangue menstrual, associado à Terra e à Lua. Através dessas duas oposições, se discerne a dualidade fundamental, luz-trevas.

Entre os astecas, o sangue humano, necessário à regeneração periódica do Sol, se chama chalchiuatl, “água preciosa”, o jade verde, que remete perfeitamente à complementaridade das cores vermelho e verde. A água é o equivalente simbólico do sangue rubro, força interna do verde, porque a água traz em si o germe de vida, correspondente ao vermelho, que faz renascer ciclicamente a terra verde depois da morte hibernal.

A água, semente (esperma) divina, de cor verde também, fecunda a terra para dar os Heróis, os Gêmeos, na cosmogonia dos dogons. Esses gêmeos vêm ao mundo, homens até os rins e serpentes daí para baixo. São de cor verde.

Mas o símbolo da água, força vital fecundante, vai mais longe ainda no pensamento dos dogons e de seus vizinhos, os bambaras. Porque a água – ou o sêmen divino – é também a luz, a palavra, o verbo gerador, cujo principal avatar mítico é a espiral de cobre vermelho. Entretanto, água e palavra não se fazem ato e manifestação, acarretando a criação do mundo, senão sob a forma de palavra úmida, à qual de opõe uma metade gêmea, que permanece fora do ciclo da vida manifestada, chamada pelos dogons e pelos bambaras, água seca e palavra seca. Água seca e palavra seca exprimem o pensamento, a potencialidade, tanto no plano humano quanto no plano divino. Toda água era seca, antes que se formasse o ovo cósmico, no interior do qual nasceu o princípio de umidade, base da gênese do mundo. Mas o Deus supremo uraniano, Amma, quando criou seu duplo, Nommo, Deus de água úmida, guia e princípio da vida manifestada, conservou com relação a ele, nos céus superiores, fora dos limites que deu ao universo, a metade das suas águas primeiras, que permanecem como águas secas. Da mesma forma, a palavra que não se expressa, o pensamento, é dita “palavra seca”. Não tem senão valor potencial, não pode engendrar. No microcosmo humano, ela é réplica do pensamento primordial, a “primeira palavra” que foi roubada a Amma pelo gênio Yuguru, antes do advento dos homens atuais. Para D. Zahan, essa palavra primeira, “palavra indiferenciada, sem consciência de si mesma”, corresponde ao inconsciente; é a palavra do sonho, aquela sobre a qual os humanos não têm poder. O chacal, ou a raposa pálida, avatar de Yuguru, tendo furtado a primeira palavra, possui, então, a chave do inconsciente, do invisível, e, em conseqüência, do futuro, que não é senão o componente temporal do invisível. Essa a razão pela qual o mais importante sistema divinatório dos dogons está fundado na interrogação desse animal.

É curioso observar que o Yuguru está associado ao fogo ctoniano e à Lua, que são universalmente símbolos do inconsciente (e femininos).

A divisão fundamental de todos os fenômenos em duas categorias, regidas pelos símbolos antagonistas da água e do fogo, do úmido e do seco, encontra uma notável ilustração nas práticas funerárias dos astecas. Por outro lado, os fatos mostram igualmente a analogia dessa dualidade simbólica com a noção do casal original na Terra-Céu: “todos aqueles que morriam afogados ou fulminados pelo raio, os leprosos, gotosos, hidrópicos, em suma, todos os que os deuses da água e da chuva tinham, por assim dizer, distinguindo, retirando-os do mundo” eram enterrados. Todos os outros mortos eram incinerados.

Essas mesmas relações da água e do fogo se encontram nos ritos funerários dos celtas. A água lustral, que os druidas empregavam para afastar os malefícios, era a água na qual “se apagava o tição ardente retirado da fogueira dos sacrifícios. Quando havia um morto numa casa, punha-se à parte um grande vaso cheio de água lustral, trazido de alguma casa onde não havia morto. Todos os que vinham ter à casa enlutada aspergiam-se com essa água ao sair”.

Em todos os textos irlandeses, a água é um elemento submetido aos druidas, que têm o poder de ligar e desligar. Os maus druidas do rei Cormac também ligaram os do Munster, para submeter os habitantes pela sede, e foi o druida Mog Ruith quem os desligou. O afogamento é o castigo aplicado a um poeta culpado de adultério. Mas a água é também, e sobretudo pelo seu valor lustral, um símbolo de pureza passiva. Ela é um meio e um lugar de revelação para os poetas que lhe põem sortilégios a fim de obter profecias. Segundo Estrabão, os druidas afirmavam que, no fim do mundo, reinariam apenas a água e o fogo (elementos primordiais).

Entre os germanos, são as águas, correndo pela primeira vez na primavera à superfície dos gelos eternos que constituem a origem ancestral de toda vida, pois que, vivificadas pelo ar do sul, elas se juntam para formar um corpo vivo, o do primeiro gigante Ymir, do qual procedem os demais gigantes, os homens, e, até certo ponto, os próprios deuses.

A água-plasma, feminina, a água doce, a água lacustre, a água estagnada e a do oceano, escumante, fecundante, masculina, são cuidadosamente diferenciadas na Teogonia de Hesíodo: a terra engendra em primeiro lugar, “sem gozar prazer com isso”, Ponto, “o mar estéril”. Depois, unindo-se a seu filho Urano, ela dá “o oceano de abismos imensos: a Terra gerou o mar infecundo, com suas tumefações furiosas. Demasias de água, sem a ajuda do terno amor. Mas depois dos embates com o Céu, ela gerou Oceano, o dos turbilhões profundos”. A distinção entre a água estéril e a água fecundante está intimamente unida, segundo Hesíodo, à intervenção do amor.

A água estagnante, plasma da terra de onde nasce a vida, aparece ainda em numerosos mitos da criação. Segundo certas tradições turcas da Ásia Central, a água é a mãe do cavalo. Na cosmologia da Babilônia, no começo de tudo, quando não havia nada ainda nem céu nem terra, apenas “uma matéria indiferenciada se estendia desde toda a eternidade: as águas primordiais. Da sua massa se desprenderam dois princípios elementares, Apsu e Tiamat… Apsu, considerado como uma divindade masculina, representa a massa de água doce sobre a qual flutua a terra… Quanto a Tiamat, ela não é outra coisa senão o mar, o abismo de água salgada de onde saem todas as criaturas”.

Da mesma forma, uma crista de limo emergindo das águas é a imagem mais freqüentemente da criação das mitologias egípcias. “Um grande lótus saído das águas primordiais, tal foi o berço do Sol na primeira manhã”.

A valorização feminina, sensual e maternal, da água dói magnificamente cantada pelos poetas românticos alemães. É a água do lago, noturna, leitosa e lunar, onde a libido desperta. “A água, essa filha primeira, nascida da fusão aérea, não pode renegar sua origem voluptuosa e, na terra, ela se mostra com uma celeste onipotência como o elemento do amor e da união… Não PE em vão que os sábios antigos procuram nela a origem de todas as coisas… E as nossas sensações, agradáveis ou não, não são mais, afinal, que as diversas maneiras de escoar em nós dessa água original que existe em nosso ser. O próprio sono não passa do fluxo desse mar invisível, universal, e o despertar é o começo do seu refluxo”. E o poeta conclui: “só os poetas deveriam ocupar-se dos líquidos”.

Dos símbolos antigos da água como fonte de fecundação da terra e de seus habitantes podemos passar aos símbolos analíticos da água como fonte de fecundação da alma: a ribeira, o rio, o mar representam o curso da existência humana e as flutuações dos desejos e dos sentimentos. Como no caso da terra, há que se distinguir na simbólica da água a superfície e as profundezas. A navegação ou o viajar errático dos heróis na superfície significa “que estão expostos aos perigos da vida, o que o mito simboliza pelos monstros que surgem do fundo. A região submarina se torna, dessa forma, símbolo do subconsciente. A perversão se acha, igualmente, figurada pela água misturada à terra (desejo terrestre) ou pela água estagnada que perdeu suas propriedades purificadoras: o limo, a lama, o pântano. A água gelada, o gelo, exprime a estagnação no seu mais alto grau, ausência de calor na alma, a ausência do sentimento vivificante e criador que é o amor. A água gelada representa a completa estagnação psíquica, a alma morta”.

A água é símbolo das energias inconscientes, das virtudes informes da alma, das motivações secretas e desconhecidas. Acontece muitas vezes nos sonhos a gente estar sentado “à borda da água a pescar. A água, símbolo do espírito ainda inconsciente, encerra o conteúdo da alma, que o pescador se esforça para trazer à superfície, e que deverá alimentá-lo. O peixe é um animal psíquico…”.

Gaston Bachelard escreveu sutis variações sobre as águas claras, as águas primaveris, as águas correntes, as águas amorosas, as águas profundas, dormentes, morta, compostas, doces, violentas, a água mestra da linguagem, etc., que são outras tantas facetas desse símbolo cambiante.


“Mais frêmito que espelho… ao mesmo tempo pausa e carícia, passagem de um
arco líquido sobre um concerto de espuma” – Paul Claudel.

Uma sindicância conduzida por Jules Gritti, em 1976, para o Centro de pesquisa sobre a informação e a comunicação, e destinada a preparar uma campanha em prol da depuração e regeneração da água revelou a persistência da simbólica da água entre os habitantes das cidades e aldeias. A água poluída infunde terror, como sujeira, imundice, doença, morte: “a poluição é o câncer da água”. Todos vêem na água como que o elemento vital primordial: “fonte de vida… sem água não há vida… tão necessária quanto o sol… resumo da vida…” As mulheres acima de 25 anos e, sobretudo, as mães, sentem uma relação particular entre a mulher e a água. O autor da pesquisa conclui: “uma vez mais constatamos que símbolos fundamentais… persistem no coração e na imaginação das pessoas, na mentalidade coletiva. Uma civilização técnica e industrial, pelas carências e poluições que suscita, pode avivar a necessidade, a angústia, o apetite por signos que falem”.

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