Simbologia do Unicórnio

O unicórnio medieval é um símbolo de poder, o que o chifre essencialmente exoressa, mas tambem de luxo e pureza.
Encontramos essas virtudes na China antiga onde o unicórnio é o emblema da realeza e simboliza as virtudes régias; Assim que estas se manifestam, o unicórnio aparece: o que acontece sob o reinado de Chuen. É, por excelência, o animal de bom augúrio. Entretanto, o unicórnio auxilia a justiça real, golpeando os culpados com seu chifre. O unicórnio tambem combate contr ao Sol e o eclipse; ele os devora.
A dança do unicórnio é um divertimento muito estimado no Extremo Oriente, na festa do meio do outono. Mas o unicórnio parece ser então apenas uma variante do dragão, outro símbolo régio, mas sobretudo senhor da chuva. A luta contra o Sol, que é responsável por secas calamitosas, poderia explicar esta aproximação. Como o dragão, o unicórnio pode ter anscido da contemplação das nuvens, de formas inumeráveis, mas sempre anunciadoras da chuva fertilizante.
O unicórnio também simboliza, com seu chifre único no meio da fronte, a flecha espiritual, o raio solar, a espada de Deus, a revelação divina, a penetração do divino na criatura. Representa na iconografia cristã a Virgem fecundada pelo Espírito Santo. Esse chifre único pode simbolizar uma etapa no caminho da diferenciação: da criação biológica (sexualidade) e à sublimação sexual. O chifre único foi comparado a um pênis frontal, a um falo psíquico: o símbolo da fecundidade espiritual. Ele é tambem, ao mesmo tempo, o símbolo da virgindade psíquica. Alquimistas viam no unicórnio uma imagem no hermafrodita, o que parece ser um contra-senso: ao invés de reunir a dupla sexualidade, o unicórnio transcende a sexualidade. Tornara-se na Idade Média o símbolo da encarnação di Verbo de Deus(Jesus) no seio da Virgem Maria; alguns dizem que determinadas obras de artes, como as famosas Tapeçarias “A Dama com o unicórnio” aludiam A Jesus e a Maria Madalena¹.
Bertrand d’Astorg, no Mito da dama com o unicórnio (Le Mythe de la dame à la licorne, Paris, 1963), renovou a interpretação do símbolo do amor cavalheiresco. Descreve primeiro sua visão de poeta:
Era um unicórnio branco, do tamanho de meu cavalo, mas com um rastro mais comprido e mais leve. A crina sedosa voava spnre sia fronte; o movimento fazia com que corressem por seu pêlo arrepios brilhantes e que sua causa espessa flutuasse. Todo o seu corpo exalava uma luz cinzenta; centelhas faiscavam as vezes de seus cascos. galopava como se quisesse manter para cima do chifre terrível, onde nervuras nacaradas se enrolavam em espiras regulares.
Depois ele vê no unicórnio o modelo das grandes apaixonadas, decididas a recusar a consumação do amor que elas inspiram e retribuem. O unicórnio é dotado de um misterioso poder de denunciar o impuro, na verdade, até mesmo a menor ameaça de alteração no brilho do diamante: é-lhe co-natural toda matéria em sua integridades. Tais seres renunciam ao amor para permanecerem fiéis ao amor e para salvá-lo de uma decadência inelutável. Que morra o amor, para que o amor viva. Aqui se opôem a “lírica da renúncia” e “lírica da posse”, a sobrevivência da donzela e a revelação da mulher. O mito do unicórnio é o da fascinação que a pureza continua a exercer sobre os corações mais corrompidos.
P. H. Simon sintetizou com perfeição o valor do símbolo:
Que ele seja, pelo símbolo de seu chifre, que separa as águas poluídas, detecta os venenos e só pode ser tocado impunemente por uma virgem, o emblema de uma pureza ativa, ou que, perseguido e invencível, só possa ser capturado pelo ardil de uma donzela que o adormece com o perfume de um leite virginal, o unicórnio sempre evoca a idéia de uma sublimação milagrosa da vida carnal e de uma força sobrenatural que emana do que é puro.
Em numerosas obras de arte, esculpidas ou pintadas, figuram dois unicórnios face a face, que parecem dar um ao outro combate feroz. Veria-se nisso a imagem de um violento conflito interior entre os dois valores que o unicórnio simboliza: salvaguarda da virgindade (o chifre único levantado para o céu), e fecundidade (sentido fálico do chifre). O parto sem a defloração, esse poderia ser o desejo, contraditório no plano carnal, que se exprime pela imagem dos chifres em luta. O conflito só é superado, o unicórnio só se torna fecundo e apaziguado, no nível das relações espirituais.
Na sexta e última tapeçaria da célebre série do museu de Cluny, intitulada A Dama com o unicórnio, a jovem mulher, que se despoja de suas jóias, está prestes a ser absorvida pela tenda, símbolo da presenla divina e da vacuidade. A inscrição que encima a tenda, um só desejo, significa que o desejo da criatura se confunde com o da vontade que a dirige. Na medida em que nossa existência é um jogo divino, nosso papel torna-se livre e ativo, quando nos identificamos com o manipulador de marionetes que nos cria e dirige. Então o ser particular dissolve-se para dar lugar ao grande ser, sob a tenda cósmica ligada a estrela polar. A Dama, por sua graça e sabedoria (Sofia – Xácti – Shektiná, isto é, a que está sob a tenda), assim como por sua pureza, pacifica os animais antagoniza o enxofre, e o unicórnio que representa o mercúrio. Com frequencia a Dama é comparada ao Sal-filosofal. Está muito próxima da mentora Hevajra, cujo nome significa aqula que não ten ego. O chifre erguido do unicórnio, que simboliza a fecundação espiritual e que capta o fluxo da energia universal, está de acordo com o simbolismo axial da tenda, prolongado por uma ponta com o simbolismo das duas lanças, com o dos penteados da dama e de sua acompanhante, encimados por um enfeite de plumas, e com o das árvores que celebram as núpcias místicas do Oriente e do Ocidente (o carvho e o azevinho correspondendo à laranjeira e à jaqueira). As insígnias, goles (vermelho em heráld.) e banda azul com três crescentes de prata, sugerem que essas tapeçarias talvez tenham sido encomendadas pelo Príncipe Djem, filho infeliz de Maomé II, o conquistador de Constantinopla. O ideal em Creuse, onde foram encontradas estas obras, não consistia em reunir a Cruz e o Crescente? A ilha oval que sustenta a cena é recortada como um lótus, símbolo do desenvolvimento espiritual. Quando ao pequeno macaco sentado diante da Dama, designa o próprio alquimista, o “macaco por natureza”, vigiando sua senhora, que pode ser comparada à Prima Materia.
O unicórnio figura em diversas estampas e=de tratados alquímicos (Lombardi, Lambsprick, Mylius, etc.). Essa besta fabulosa de origem oriental, ligada ao terceiro olho e ao acess ao Nirvana, ao retorno até o centro e à Unidade, estava totalmente destinada a designar para os herméticos ocidentais o caminho na direção do ouro filosofal – na direção da transmutação interior que se efetua, quando a androginia primordial é reconstituída. Na China o nome do unicórnio, Ki lin, significa Yin-Yang.

¹ Starbird, Margareth. “Maria Madalena e o Santo Graal – A Mulher do vaso de alabastro“. Ed. Sextante.

Fonte: “Dicionário de Símbolos”. Chevalier, Jean e Gheerbrant, Alain. Ed. José Olympio

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